Título: Aumenta a desconfiança em relação a Morales
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 15/05/2006, Brasil, p. A3
A crise do gás entre o Brasil e a Bolívia entrou e saiu da Cúpula União Européia-América Latina do mesmo tamanho de antes, mas com um agravante: aumentou o grau de desconfiança em relação ao presidente boliviano Evo Morales. Depois de ter atacado o Brasil e a Petrobras na quinta-feira de maneira que raramente se terá visto, Morales voltou atrás no dia seguinte com humildade e "todo respeito". No sábado, disse que quer aumentar as exportações de gás para o Brasil e destacou "enormes coincidências" com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A percepção, porém, é de que o verdadeiro pensamento de Morales é o primeiro, de hostilidade ao investidor estrangeiro. Sua recuada em Viena foi resultado de enormes pressões, num ambiente que disse que não estava habituado a freqüentar. De volta a La Paz, com quatro ou cinco assessores que o cercam, pode ser outra coisa.
Ao receber Morales no sábado para um café da manhã, no elegante Hotel Imperial de Viena, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse-lhe que estava pagando um preço político interno pela crise do gás, mas que, se não tinha brigado nem com o presidente americano George Bush, não era com ele que iria abrir conflito.
Mas alertou que tampouco aceitaria ter uma "espada sobre a cabeça". Lula insistiu que a questão da Petrobras era "muito séria" e Evo "entendeu", depois de ter repetido sua retratação e acusado a imprensa de distorção.
Na saída, cercado por jornalistas, Morales em nenhum momento respondeu a uma mesma questão repetidamente feita: se a Petrobras será indenizada por prejuízos com a nacionalização do gás. No dia anterior, ele dissera que não haveria indenização. Ao sair do encontro com Lula, ficou calado. Um diplomata brasileiro disse que a questão de indenização "está na mesa".
Os dois presidentes não teriam discutido detalhes para resolver a crise do gás. O importante, na avaliação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, é que os termos de uma comissão bilateral de ministros é que prevalece. "Ficou implícito que não deverá haver decisões unilaterais, será uma cooperação e um diálogo com base nos documentos assinados, é o que queremos e é o que deverá ser feito", afirmou.
Morales disse a Lula que o preço do gás deve ser "eqüitativo e racional". Para o Brasil, isso significa que deve ser "compatível com o empreendimento", afirmou Amorim. O presidente boliviano convidou o ministro a visitá-lo já nesta quinta-feira em La Paz, para preparar sua visita ao Brasil, mas havia ainda problema de agenda a ser resolvida. Um assessor de Morales sugeriu que se faça um acordo mais rapidamente, porque abre caminho para cooperação.
"Prefiro ficar com as últimas declarações (de Morales) dadas diretamente ao presidente Lula", disse Amorim ao ser indagado sobre a mudança de opinião do presidente boliviano.
Depois do estrago causado por sua entrevista na quinta-feira, Morales procurou se retratar no dia seguinte também com outros parceiros. Seus assessores chegaram a submeter com antecedência a diplomatas espanhóis uma carta na qual recuava nas críticas à Espanha e ao primeiro-ministro José Luiz Zapatero e, de novo, acusando a imprensa. (AM)