Título: O real valorizado e seus efeitos
Autor: Sérgio Werlang
Fonte: Valor Econômico, 15/05/2006, Opinião, p. A13
O preço do dólar em reais atingiu R$ 2,05 e tem se mantido abaixo de R$ 2,10 (exceto pela última sexta-feira onde atingia R$ 2,15 à tarde). Ocorre que isto já representa uma forte pressão em vários setores da economia brasileira. Para efeito de comparação, não há dúvida de que no ano de 1998, após cerca de quatro anos do Plano Real, a moeda nacional também estava muito valorizada, resultado da política cambial então vigente. Inclusive, neste ano, o déficit comercial foi de US$ 6,6 bilhões.
De lá para cá, o mundo mudou muito. Com efeito, houve expressivo aumento do comércio internacional, que cresceu 6,2% ao ano, em média, de 1998 a 2005. Para este ano espera-se uma taxa de 6%. Ao mesmo tempo, houve uma grande elevação do preço das commodities, que são mercadorias que podem ser produzidas em qualquer parte do mundo, sem muita especificidade. Como exemplo temos quase todos os bens básicos (agricultura em geral, pecuária, mineração, inclusive petróleo) ou produtos industriais advindos destes (como óleo e farelo de soja, aço, suco de laranja e café solúvel) que também podem ser classificados como commodities. A maioria destas mercadorias depende de grandes extensões territoriais e de um bom clima, ou seja, dependem da abundância de recursos naturais. Cerca de 60% das exportações brasileiras são de commodities.
O crescimento do comércio mundial e do preço das commodities ocorreu, sem dúvida, pela expressiva recuperação da economia global (o mundo cresceu 3,2% ao ano entre 1990 e 1997, e 3,9% ao ano entre 1998 e 2005). Como tem sido de praxe, os EUA foram responsáveis por boa parte desta retomada, no entanto houve várias outras influências. A principal delas foi a ascensão da China como uma grande partícipe do comércio internacional. Em 1990, a China representava 1,8% das exportações mundiais. Em 2005, passou a 8,4%. E, mais recentemente, o Japão começou a sair da prolongada recessão a que foi submetido desde 1998.
Esta condição privilegiada da economia global teve um impacto muito grande em países que são produtores de commodities, em especial no Brasil. No ano passado, nosso saldo comercial atingiu US$ 44,8 bilhões. Mais ainda, mesmo com o câmbio valorizado nos níveis atuais, as projeções para o nosso balanço comercial são ainda muito promissoras, acima de US$ 40 bilhões para este ano.
Moeda brasileira apreciou-se muito mais em relação ao dólar, desde 2002, do que a média das moedas de outros grandes produtores de commodities Mas será que este fato por si só justifica a manutenção de taxas de câmbio tão baixas? Para isso dois fatores têm que ser esclarecidos. Primeiro: será que esta situação de bonança mundial é duradoura? Segundo: se for duradoura, será que esta persistente valorização do real é boa para o país?
Em resposta à primeira pergunta, deve-se notar que é possível algum ajuste nos EUA, o que certamente causará alguma diminuição no ritmo da atividade global. Contudo, a recuperação japonesa está em curso, assim como a China (e em menor escala a Índia) já é uma economia grande e com uma forte taxa de crescimento. Isto pode manter esta situação por um tempo prolongado. De fato, olhando-se o histórico do preço de commodities (desde 1845, série do "The Economist"), vê-se que este manteve-se elevado por períodos de tempo longos em três ocasiões: 1) por 17 anos em meados do século XIX, que corresponde a grosso modo à industrialização inglesa; 2) por 39 anos após a guerra da secessão americana, que mais ou menos reflete a ascensão dos EUA como potência econômica mundial; e 3) por 20 anos após a grande recessão.
Isto permite dizer que, no passado, grandes mudanças estruturais na economia mundial tiveram reflexos de aumento prolongado nos preços das commodities. Portanto, se o advento da China como uma nova economia pujante for uma alteração estrutural da magnitude das que aconteceram desde meados do século XIX, pode muito bem ser que esta bonança nas commodities seja muito duradoura.
Já para responder à segunda pergunta, deve-se notar que a moeda brasileira apreciou-se muito mais em relação ao dólar, desde abril de 2002, do que a média das moedas de outros países que são grandes produtores de commodities (Austrália, Nova Zelândia, Chile e Canadá). Entre abril de 2002 e abril de 2006, a média das moedas destes países valorizou-se 29% com relação ao dólar, enquanto o real valorizou-se muito mais: 41%! E note que em abril de 2002 ainda não havia acontecido a forte desvalorização cambial que antecedeu as eleições presidenciais. É claro que há algum outro fator que está influenciando o câmbio no Brasil. O que difere em muito nosso país e os grandes produtores de commodities é a nossa política monetária, que é extremamente apertada.
Para termos uma idéia de quão valorizado está o câmbio, pode-se comparar o preço em reais (deflacionado pelo IPCA) das exportações hoje (média do primeiro trimestre) com os vigentes em 1998 (em média). Para isso, utilizaram-se dos dados da Funcex. Vê-se que dos 27 setores cobertos, 10 estão com preços inferiores (ou seja, 10 dos 27 setores estão com câmbio mais valorizado, ainda que em 1998).
Por fim, a evidência empírica recente, que foi analisada em um importante trabalho de 2003 de Acemoglu, Johnson, Robinson e Thaicharoen (Acemoglu, D., Johnson, S., Robinson, J. e Thaicharoen, Y. 2003, "Institutional Causes, Macroeconomic Symptoms: Volatility, Crises and Growth", Journal of Monetary Economics 50:49-123), mostra que a sobrevalorização cambial é usada por governos, em países com instituições fracas, para transferir renda de um segmento da população para outro. O resultado estatístico mostra que sobrevalorizações têm reduzido o crescimento de longo prazo e aumentado a volatilidade do mesmo. Não é hora do Brasil incorrer neste erro.