Título: Crescimento mostra estratégia para exportar
Autor: Ivana Moreira e Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2004, Brasil, p. A-2
O ex- secretário-geral da Unctad, Rubens Ricupero, admite que a transnacionalização de empresas brasileiras fará parte cada vez mais de uma estratégia de sobrevivência. Para Ricupero, que dirigiu a organização nos últimos dez anos, chega a ser "paradoxal para uma economia que não se desenvolveu por falta de capital estar investindo no exterior". Segundo ele, quase todos os países que têm empresas transnacionais são exportadores de capitais. "Há exceções como a China, que também recebe capital. A diferença é que a China tem dinheiro para desenvolver infra-estrutura e nós não temos". Segundo Ricupero, as conclusões do estudo da Unctad mostram que o aumento do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) do Brasil, a médio e longo prazos, são uma estratégia indispensável para assegurar o crescimento das exportações. Ele lembra que há muitos casos em que só se consegue vender estando fisicamente instalado no país. "O filé mignon da economia mundial está na mão das empresas instaladas num número grande de países e não das que são puramente exportadoras", observou Ricupero. Mas, na opinião do ex-secretário da Unctad, não se pode atribuir somente à busca da competitividade essa expansão de IDE brasileiro. Há o crescimento dos investimentos que estão sendo feitos para contornar barreiras comerciais, como o caso de suco de laranja na Flórida, ou do aço nos EUA. "Já é sabido que há investimentos brasileiros grandes nos países do Caribe e da América Central para explorar o mercado americano de têxteis e confecções, aproveitando as vantagens que os americanos oferecem apenas para aqueles países", lembrou. A segunda causa seria de ordem financeira. Através de paraísos fiscais ou sucursais no exterior, essas empresas podem levantar financiamentos a taxas de juros muito menores do que no Brasil. E para não incorrer na taxa de risco brasileira, elas são obrigadas a operar efetivamente no exterior. "Se a Vale do Rio Doce toma empréstimo no exterior para investir numa mina no Brasil, por mais eficiente que seja, paga a taxa de risco Brasil, de 400 pontos acima do Tesouro americano. Se ela se transnacionaliza e levanta dinheiro no exterior para comprar mina na Austrália, paga taxa de risco da Austrália". Como o Brasil é um país que tem escassez de capital, há um impacto negativo nessa tendência, segundo ele. O país "acaba exportando esse capital insuficiente para gerar emprego, exportação e riqueza no exterior". Mas nem todos os casos são negativos. Há algumas, poucas, empresas que são efetivamente operadoras no exterior por razões de eficiência, "sobretudo na área de exportação de serviços de construção, em parte porque no Brasil não está havendo investimento em infra-estrutura. E nesse processo elas ficam mais sólidas, ganham experiência internacional, ganham um certo cosmopolitismo", afirmou. Para Ricupero, o processo de transnacionalização de empresas brasileiras não só é inevitável como desejável, sobretudo porque há áreas em que isso é uma estratégia de sobrevivência. "Quem não fizer isso, vai acabar se expondo".