Título: Investimento do Brasil no exterior deve atingir recorde de US$ 9,5 bi
Autor: Ivana Moreira e Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2004, Brasil, p. A-2

Os investimentos diretos das empresas brasileiras no exterior deverão bater um recorde em 2004. Os números divulgados ontem pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) mostram que o fluxo de Investimento Direto Estrangeiro do Brasil (IDE) deve atingir neste ano US$ 9,5 bilhões. América Latina, Caribe e Estados Unidos são os destinos principais destes aportes. Os números registrados em 2004 - que incluem investimentos em paraísos fiscais - poderão colocar o Brasil entre os mais importantes investidores do mundo, com um estoque de investimento no exterior de US$ 66 bilhões. Apenas uma transação foi responsável por mais da metade do investimento estrangeiro direto brasileiro em 2004: a fusão da Ambev com a belga Interbrew. O negócio realizado em agosto, criando o grupo Imbev , representou um fluxo de US$ 5 bilhões. O crescimento de empréstimos intracompanhia - de empresas brasileiras para filiais no exterior - também contribuirá para o recorde. Só em agosto, eles somaram US$ 2,1 bilhões. Na avaliação do diretor da divisão de investimentos da Unctad, Karl Sauvant, a alta do IDE do Brasil tem relação com os volumes cada vez maiores de investimentos estrangeiros que o país vem conseguindo atrair, apesar da retração recente. Em 2003, o Brasil já registrava o maior estoque de investimento estrangeiro direto entre os países da América Latina. Entre os países em desenvolvimento, era o quarto colocado do ranking, atrás de Hong Kong, Cingapura e Taiwan. Os fluxos de investimento estrangeiro direto cresceram bastante a partir da década de 90, mas registraram flutuações fortes nos últimos anos. Em 2002, o Brasil foi a mais importante fonte de investimento estrangeiro direto da América Latina, com saídas de US$ 2,5 bilhões. Em 2003, no entanto, os fluxos se retraíram. Segundo o professor da Fundação Dom Cabral, Álvaro Cyrino, o crescimento dos investimentos diretos do Brasil no exterior também reflete o esgotamento da capacidade de absorção do mercado interno para a produção de alguns setores da economia. Para ganhar mercado externo, algumas indústrias precisam ir além da exportação por meios intermediários e estão investindo na abertura de filiais fora do país. "A lógica do investimento no exterior é a lógica do esgotamento do sistema de exportação", define Cyrino. Para crescer na curva de valor nas vendas externas, em alguns casos é preciso até mesmo ter mais do que filiais e investir na abertura de unidades produtivas fora do país. É o caso, exemplifica o professor, da siderúrgica Gerdau, que vem investindo na compra de siderúrgicas fora do país. Parceira da Unctad no Brasil, a Fundação Dom Cabral vem trabalhando há um ano num projeto para incentivar e apoiar a transformação de empresas brasileiras em "global players". Representantes da Ambev, Embraco, Multibrás, Natura, Petrobras, Sadia, Tupy, Votorantim e WEG participam do projeto. Uma pesquisa realizada pela fundação, com 109 das mil maiores companhias brasileiras, revelou que as empresas brasileiras adotam uma postura "gradualista" nos processos de internacionalização. Elas apontam a falta de financiamento que dê suporte aos seus investimentos externos. Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incentivou as empresas brasileiras a perderem o medo de se tornarem multinacionais. De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, a meta do governo é chegar ao fim do mandato com pelo menos 10 empresas transnacionais brasileiras em operação. Sauvant, diretor da Unctad, diz que é difícil diferenciar o tipo de investimento direto feito pelo Brasil do de outros emergentes. Ele observa que a maioria das companhias dos países em desenvolvimento prefere operações de fusões e aquisições. "No caso do Brasil, há muitos investimentos ´´greenfields´´, os investimentos novos com construção de instalações. O importante é que as companhias brasileiras querem não apenas ser exportadoras, mas também estar nos mercados externos". O aumento de IDE brasileiro seria, em parte, uma maneira de contornar barreiras no exterior. Mas Sauvant acredita que a principal motivação para companhias investirem no estrangeiro está baseada em considerações de competitividade internacional. Isso inclui acesso a tecnologias e também a financiamento mais barato. "Especialmente no setor de serviços, não há alternativa a não ser estabelecer-se no exterior. Bancos brasileiros estão no exterior, companhias de construção, de software. Há potencial", prevê o diretor. Sobre o fato de que segundo a Unctad a maior parte do estoque de investimentos brasileiros no exterior está localizado em paraísos fiscais e tem motivação financeira, Sauvant avalia que não é só o Brasil que investe em paraísos fiscais, mas empresas de várias partes do mundo, para obter vantagem fiscal.