Título: Selic deve cair ao menor nível dos últimos 31 anos
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 14/07/2006, Finanças, p. C1
A taxa básica de juros brasileira irá cair na próxima quarta-feira para o patamar mais baixo dos últimos 31 anos. A Selic recuará dos atuais 15,25% - taxa idêntica à praticada em janeiro e fevereiro de 2001 - para 14,75% e se tornará o menor juro desde os 13,6% de março de 1975. Esta aposta é de todos os 14 analistas consultados ontem pelo Valor. O consenso absoluto é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central irá, no dia 19, cortar o juro básico em 0,50 ponto percentual, mantendo o ritmo de queda da reunião anterior, realizada no final de maio. Será a nona queda consecutiva da Selic. O BC iniciou a série de cortes em setembro do ano passado, quando a taxa estava em 19,75%. Mas o recorde nominal de 13,6% não será quebrado este ano. Em termos reais, muito menos. Em 1975, o juro real era francamente negativo, já que o IGP-DI rodava a 29% ao ano. Os analistas acreditam que o fim do processo de flexibilização monetária está próximo. O consenso informado pelo Boletim Focus do BC é de Selic a 14,25% em dezembro. Após a baixa de 0,50 ponto que deverá ser feita na quarta-feira, o Copom só terá espaço para mais uma redução de igual tamanho. Daqui para a frente, a "parcimônia" - palavra utilizada nas duas últimas atas do Copom - dará o tom da política monetária porque, abaixo de 15%, o BC estará, na opinião do economista-chefe da UpTrend Consultoria, Jason Vieira, entrando, pé ante pé, numa zona nebulosa desconhecida.
É por isso que, no entender de Vieira, após a diminuição do juro para 14,75%, a tendência é de o Copom não esperar mais para proceder a "parada técnica". Após reconhecer o terreno e não constatar perigo, o Copom só deverá retomar a flexibilização em sua última reunião do ano, em novembro. Uma vez que se encontra muito perto da zona cinzenta, o BC não sofreria a tentação de reduzir a taxa em apenas 0,25 ponto no dia 19? O economista acha que não. "A diminuição será de 0,50 ponto, e não de 0,25 ponto, porque a inflação corrente muito baixa irá carregar para 2007 uma inércia, sobretudo nos preços administrados, que irá atenuar as pressões decorrentes da ampliação dos gastos públicos", diz Vieira.
O economista-chefe da Austin Ratings, Alex Agostini, também acredita que a redução para 14,75% será a última, encerrando o ciclo de desaperto. "O Copom deve reiniciar o processo de queda depois das eleições e, se tudo estiver bem, irá aprofundá-lo em 2007", prevê Agostini.
Newton Rosa, da Sul América Investimentos, diz que o BC só irá encerrar o ciclo de afrouxamento depois de sinalizar a sua intenção por meio de uma baixa de 0,25 ponto. "Ele costuma iniciar e encerrar ciclos por meio de um degrau de 0,25 ponto", diz Rosa.
Para Zeina Latif, economista do ABN AMRO Real, a melhora ocorrida no mercado internacional desde a reunião de 31 de maio do Copom confirma o cenário traçado na ata respectiva de que a volatilidade não caracterizava uma crise, mas uma "correção de mercado". Não há, portanto, motivo para já desacelerar o desaperto para 0,25 ponto. "Vale lembrar que de uma reunião para a outra o dólar recuou de R$ 2,30 para R$ 2,20", diz Zeina.
O Copom deve optar pelo caminho do meio porque, na visão do economista Sergio Vale, da MB Associados, as alternativas representadas pelo 0,25 ponto ou pelo 0,75 ponto são inadequadas. A diminuição do ritmo de corte não combina com o controle já conquistado tanto para o IPCA deste ano quanto para 2007. E a aceleração para 0,75 ponto esbarra na instabilidade internacional.
Se o consenso para o Copom de quarta-feira é absoluto, os analistas divergem sobre a Selic de fechamento do ano. Há tanto bancos, como o Credit Suisse, que vêem a possibilidade de aprofundamento das quedas para até 13,75%, quanto os que apostam em taxa de 14,50%. É por isso que o economista do Santander Banespa, Maurício Molan, considera a ata do encontro do dia 19, a sair no dia 27, até mais importante que a própria reunião em si. Espera-se que a ata defina os próximos passos e possibilite o fechamento de um consenso para o fim do ano.
Para Elson Teles, economista-chefe da Concórdia Corretora, a parada técnica se aproxima em face das incertezas em relação aos efeitos defasados das quedas já realizadas na taxa básica e a menor distância em relação à suposta taxa de juro neutra ou de equilíbrio. Teles destaca também o aumento progressivo do foco do Copom sobre a inflação de 2007. O ano que vem não deverá contar com condições tão favoráveis quanto às observadas em 2006.
O analista Marcelo Ribeiro, da Pentágono Asset, apresenta outro argumento para a parcimônia do BC. "Com os bancos centrais em todo mundo elevando juros em sincronia, num processo de 'competição por recursos', o encerramento do ciclo de redução da Selic não está muito distante", diz ele.
O Brasil pode ainda estar na contramão mundial porque, segundo Roberto Padovani, da Tendências Consultoria, "os juros reais ainda estão elevados em relação ao que se imagina ser seu equilíbrio de longo prazo". E também porque o risco inflacionário é baixo. O câmbio mantém-se estável e apreciado, a atividade econômica se recupera mas ainda se encontra aquém do potencial. Mesmo assim, em agosto o ritmo de corte será reduzido. Eduardo Velho, da Mandarim Gestão de Ativos, diz que o BC optará pela "sintonia fina" a partir do mês que vem porque uma das variáveis que mais observa, o hiato do produto, está se estreitando.