Título: Mantega considera valorização do real "inevitável"
Autor: Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 02/08/2006, Brasil, p. A3
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o Brasil está "fadado" a ter uma moeda valorizada. Segundo ele, o país recebe uma enxurrada de dólares que leva à apreciação do câmbio, devido ao saldo comercial robusto, aos fundamentos sólidos e, em menor medida, aos juros elevados. "É muito difícil que o Brasil tenha novamente um câmbio de R$ 2,90 a R$ 3, como no passado. Nós temos que nos acostumar com patamares menores", afirmou Mantega, ressalvando que o governo toma medidas para atenuar a valorização, como a compra de dólares no mercado e o pacote cambial da semana passada.
Ruy Baron/Valor Guido Mantega: "É muito difícil que o Brasil tenha novamente um câmbio de R$ 2,90 a R$ 3, como no passado" O ministro também esbanjou otimismo em relação à economia. Disse que o Brasil iniciou um novo ciclo de desenvolvimento, previu um crescimento de 4% a 4,5% neste ano, com inflação sob controle e redução do endividamento externo, além de rechaçar as avaliações de que o país passa por uma crise fiscal. Presente ao 3º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), garantiu que a meta de superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) será cumprida neste ano. Em seu discurso, disse que apostava uma caixa de vinho importado com o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira - um dos organizadores do evento - que a meta será cumprida. A caixa, brincou, poderá ser comprada por Bresser a uma taxa de câmbio "conveniente".
Mantega disse que o governo tenta atenuar uma valorização do câmbio que é "inevitável" e tem caráter estrutural. Segundo ele, com o superávit comercial expressivo e o fortalecimento dos fundamentos - que aumentam a confiança no país, intensificando o fluxo de recursos externos -, a tendência da moeda é se valorizar. Mantega disse que isso não ocorre apenas com o Brasil, mas também com outros países emergentes, como a Rússia e a Coréia do Sul.
A alternativa, segundo ele, é usar medidas para atenuar a apreciação, como a compra de dólares no mercado, estratégia também usada por esses países. Para rebater a idéia de que o governo deixa o câmbio flutuar livremente no Brasil, Mantega disse que, de janeiro de 2003 a maio de 2006, as atuações do BC e do Tesouro totalizaram US$ 150 bilhões, entre compras no mercado à vista e redução da dívida doméstica indexada ao câmbio. Sem isso, o dólar estaria abaixo de R$ 2.
"Não é verdade que não há atuação do governo no mercado de câmbio", disse ele, rebatendo as críticas de que o Brasil tem um regime de flutuação pura da moeda. Mantega descartou, porém, a adoção do modelo chinês. A China intervém com força no câmbio - as reservas do país estão na casa de US$ 930 bilhões - e mantém uma taxa praticamente fixa, apesar de alguma flexibilização introduzida no regime em 2005. "A China intervém no câmbio e não é essa política que nós queremos realizar."
O ministro disse que as medidas do pacote de liberalização cambial também tendem a atenuar a valorização da moeda, por permitir que os exportadores mantenham no exterior até 30% de suas receitas em dólares. Ele frisou ainda que as medidas também devem reduzir o custo para os exportadores.
Mantega admitiu que os juros altos ajudam a explicar a valorização da moeda, embora considere que eles têm menos peso que o superávit comercial e a melhora dos fundamentos. Taxas internas elevadas atraem investidores interessados em aproveitar a diferença entre juros domésticos e externos.
Ele disse que não está satisfeito com o nível do dólar, mas ressalvou: "Eu gostaria de um câmbio melhor e de um juro menor, mas as coisas não são como a gente gostaria. Elas se dão de acordo com as possibilidades, e eu não vou fazer nenhuma loucura para conseguir aquilo que a gente gostaria."
O ministro disse ser contrário à adoção do controle de capitais como alternativa para atenuar a valorização do câmbio. "Ela é inadequada para os tempos que nós vivemos hoje." Para ele, a medida podia ser adequando em momentos em que o país recebia muito capital especulativo, o que não seria o caso no momento. "Nos últimos 12 meses, entraram apenas US$ 6 bilhões de capital de curto prazo."
Mantega insistiu que o Brasil entrou na rota do crescimento sustentável. Para ele, o país pode crescer 4% a 4,5% neste ano e já acumula condições para que o crescimento fique acima de 4% nos próximos anos. "O Brasil entrou num novo ciclo de desenvolvimento." Ele disse que a inflação está sob controle, mas acrescentou que a Fazenda está atenta a eventuais reajustes abusivos. O governo não hesitaria em baixar o imposto de importação, como fez no caso do aço, afirmou.
Mantega foi bastante enfático na defesa da política fiscal, atacando os economistas que apontavam no começo do ano o risco de não cumprimento da meta de 2006. Ele reiterou o compromisso fiscal do governo, e disse que quem promete cortes drásticos de gastos públicos tem que especificar como vai fazer isso. Para o ministro da Fazenda, cumprir essa promessa exigiria a redução significativa de gastos sociais, o que não seria dito por quem propõe essa estratégia.