Título: Câmbio rompe ciclo de crescimento acima da média mundial
Autor: Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 02/08/2006, Brasil, p. A3

Depois de cinco anos consecutivos em que o volume exportado pelo país cresceu acima do volume do comércio mundial, o Brasil vai interromper esse ciclo em 2006. No acumulado em 12 meses até maio, o país exportou uma quantidade 4,7% maior e a expectativa é que mantenha um ritmo semelhante - ou menor até o fim do ano -, enquanto as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam um aumento de 8% para o volume do comércio mundial este ano.

Esta comparação, e a preocupação com o que ela representa para a perda de competitividade exportadora do país, foi manifestada ontem no 3º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) não por um economista da oposição ou por um empresário exportador. O porta-voz da notícia - e da preocupação - foi o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida. Pelos dados apresentados, de 2001 a 2005 a quantidade exportada pelo Brasil cresceu a um média de 12,5% ao ano enquanto no comércio mundial o ritmo foi de 5,5% ao ano.

Gomes de Almeida começou sua exposição dizendo que, de forma proposital, havia omitido nos gráficos e tabelas que apresentaria os dados relativos ao período 2003-2005, mas não foi fiel a sua precaução. Sua palestra - como afirmou um dos debatedores, o professor Luiz Fernando de Paula, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ) - mostrou que ele continua olhando o câmbio da mesma forma que olhava antes de ir para o governo. Assim, sua exposição manteve uma leitura crítica dos efeitos da apreciação do real para a economia brasileira. Entre eles, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a redução dos investimentos futuros dos setores exportadores.

O câmbio é "fundamental como estratégia de desenvolvimento, é ele que unifica os elementos desta estratégia", defendeu o titular da SPE, listando países que cresceram de forma acentuada por a terem adotado: China, Malásia, Irlanda, entre muitos outros, a maioria na Ásia. "O Brasil cresceu mais nos períodos em que manteve o câmbio subvalorizado do que nos períodos de sobrevalorização", afirmou, mas em seguida acrescentou que acredita que este ano será uma exceção a essa regra.

Nos anos de 2003 a 2005 - já no mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, portanto - as exportações brasileiras cresceram 1,5% acima das exportações mundiais, enquanto o PIB do país subiu 0,5% (ou a metade) do crescimento mundial. "Isso não significa, contudo, que temos um padrão mexicano de exportação, baseado em 'maquiladoras'. Isso foi efeito da política monetária, que fez com que nosso crescimento ficasse mais baixo do que o queríamos atingir. Mas a política monetária tinha outros objetivos", ponderou, em referência indireta à taxa de juros do Banco Central e a forma de perseguir a meta de inflação.

Na saída, Gomes de Almeida não concordou com a avaliação de que sua palestra foi crítica à própria política cambial do governo que ele representa. "Nossa taxa de câmbio não é catastrófica. Ela reduz a rentabilidade do exportador, mas é compatível com um superávit de US$ 40 bilhões, que é expressivo", ponderou. O câmbio, acrescentou, prejudica muito alguns setores (especialmente os intensivos em mão-de-obra e aqueles diretamente afetados pela concorrência chinesa), mas não "teremos um colapso exportador".

Também apresentaram trabalhos Maurício Mesquita, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e Paulo Gala, professor da FGV. Para Mesquita, a valorização do real - e também de outras moedas da América Latina - é agravada pela complementaridade entre as economias da região e da Ásia. Os países latinos abastecem a Ásia de recursos naturais, enquanto os países asiáticos são competitivos em manufaturados e acabam ganhando mercados nos e dos países da América Latina. "Os temos de intercâmbio da região mudaram e isso não é passageiro. A apreciação, portanto, pode estar apenas no início", ponderou.

Paulo Gala, da FGV, fez um estudo comparando câmbio e taxa de crescimento em vários países da Ásia e América Latina. Entre suas conclusões, a principal é que o câmbio não é neutro, no longo prazo, do ponto de vista do crescimento. Ou seja, se um país mantém um câmbio sobrevalorizado por 10 ou 15 anos, terá um PIB menor do que poderia ter se a taxa de câmbio fosse competitiva.

Os participantes do debate não discutiram qual deveria ser a taxa atual de câmbio. Fora da palestra, Gomes de Almeida disse que a taxa a R$ 2,20 não impede o país de alcançar superávits comerciais expressivos. Para Cláudio Vaz, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), o câmbio a R$ 2,2 vai acentuar a perda de dinamismo do Brasil em relação ao comércio mundial.