Título: Corte de 0,5 ponto ainda é consenso
Autor: Pinto,Lucinda
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2011, Finanças, p. C1
O agravamento do ambiente externo, observado nas últimas duas semanas, justificou um ajuste nas apostas das tesourarias para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana. Mas, entre economistas, a ideia é de que o BC continuará com sua estratégia moderada. O contrato de juros futuros com vencimento em janeiro de 2012 incorporava no fechamento do pregão de ontem 60% de chance de o Copom acelerar o passo e cortar os juros em 0,75 ponto porcentual. Mas todos os 30 economistas consultados pelo Valor ainda preveem queda de 0,50 ponto na Selic, para 11%. A dúvida entre esses profissionais ainda é sobre o tamanho do ciclo - ou seja, há divergência sobre quanto mais o juro terá de ser reduzido e, portanto, em que nível a Selic encerrará 2012. A minoria dos entrevistados vê o juro a 9% no fim do ano que vem; 11 trabalham com 9,5%; e 12 analistas, projetam Selic de 10% até 11%.
A perspectiva do ciclo de corte do juro vem sendo ampliada gradativamente e, sobretudo, em função da piora do cenário externo, avalia Tatiana Pinheiro, economista do Banco Santander, que projeta corte de 0,50 ponto na semana que vem, chegando a 9,5% ao longo de 2012. "A piora é grande. De agosto para cá, as notícias só se acumularam e os riscos também. E a perspectiva é de piora nas economias avançadas no curto e no médio prazo. E isso não vale só para a Europa, mas também para os Estados Unidos onde não ter acordo no Congresso sobre o orçamento do país não é nada trivial", avalia.
Ampliar imagem
A economista conta que simulações de choque externo indicam que a crise será duradoura. E, o atual estágio, evidencia que a crise não é igual a de 2008. Não há ruptura, mas ela será prolongada. E o cenário que se avizinha para as economias centrais é de baixo crescimento por mais tempo, o que abre espaço para que o Banco Central inicie o ano de 2012 cortando a taxa de juro.
Tatiana pondera que além da crise externa, dados fracos da economia doméstica pesam nas projeções do mercado. E, na sua avaliação, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do país estará muito atrelado ao cenário internacional. "Em 2008, a desaceleração da atividade doméstica foi concentrada. Agora, alguns setores são mais atingidos, especialmente os suscetíveis ao crédito. Eles é que podem levar a um PIB até negativo no terceiro trimestre e a um resultado medíocre no quarto trimestre deste ano."
A percepção de que uma trajetória de retração da atividade global nos próximos meses é inevitável é o argumento principal do economista da MB Associados, Sérgio Vale, que está no grupo dos que têm a projeção mais baixa do levantamento. Ele espera que os juros caiam gradativamente, em doses de 0,5 ponto porcentual, até atingir 9% ao ano. Isso, diz ele, se não houver uma piora aguda da crise da União Europeia - como um default desordenado da Grécia ou a saída do país da zona do euro - que provoque uma recessão global de grande intensidade.
"Ver a economia da China desacelerar, como confirmou o PMI (índice de atividade industrial), já está no cenário base", observa. "Mas se houver um evento mais grave na Europa, então podemos ver a taxa de juros cair para baixo de 9%", diz.
André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, espera a Selic a 10% em dezembro de 2012, mas considera que a taxa poderia cair mais, para 9,5% por exemplo, também devido à piora no nível de atividade lá fora. No entanto, ele acredita que o BC deve cortar o juro básico menos do que poderia. Isso, porque um corte mais modesto seria uma forma "barata" de segurar parte da expectativas dos agentes econômicos e ajudar na ancoragem das estimativas de inflação.
Na outra ponta, o economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, prevê apenas mais um corte de 0,5 ponto da taxa Selic na reunião da semana que vem. Depois disso, a taxa deve ficar estável em 11% até o fim de 2012. "Claro que estamos esperando a ata da próxima reunião para reavaliar esse cenário. Mas, por ora, as indicações dadas pelo BC justificam essa projeção", afirma Santos, referindo-se às frequentes afirmações do presidente do BC, Alexandre Tombini, de que os juros devem prosseguir em processo de "ajuste moderado". "Embora tenha havido um agravamento do cenário externo nos últimos dias, entendo que o BC já se antecipou ao cenário conturbado, iniciando o ciclo de alívio monetário em agosto", observa. Assim, para o economista, o desempenho da inflação, que ainda é preocupante, pode limitar a continuidade da queda da Selic no início de 2012.
Os economistas da BBDTVM fecham com a maioria pesquisada pelo Valor e projetam corte da Selic em 0,50 ponto na última reunião do Copom deste ano, mas não descartam a possibilidade de redução de até 0,75 ponto. "A chance não é desprezível, em razão de julgarmos que o cenário internacional sofreu deterioração adicional nos últimos 45 dias. Porém, a ausência de sinais dos diretores [do BC] na direção da aceleração do ritmo de cortes nos recentes discursos sugere manutenção da estratégia corrente", afirmam os economistas da instituição.