Título: Economia perde fôlego no 2º trimestre
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 30/06/2006, Brasil, p. A4

A economia brasileira desacelerou o ritmo de crescimento do primeiro para o segundo trimestre. A produção industrial, que mostrou estabilidade em abril em relação a março, teve expansão mais forte em maio, mas os sinais da indústria em junho sugerem um desempenho mais fraco, prejudicado em parte pela greve da Receita Federal e pela interrupção das atividades em dias de jogo do Brasil na Copa do Mundo. O aumento das importações - substituindo produção local - também contribuiu.

Com isso, depois do crescimento de 1,4% no primeiro trimestre em relação ao anterior, na série livre de influências sazonais, o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar algo como 1% no segundo em relação ao primeiro. Juros em queda, aumento da massa salarial e crédito farto ainda puxam a economia.

O setor de distribuição de aços planos é um dos que tiveram um segundo trimestre pior do que o primeiro. O presidente da Rio Negro, Carlos Loureiro, estima que houve queda de 7% no período de abril a junho na comparação com os três meses anteriores. Números preliminares indicam que, em junho, a distribuição ficou estável em relação ao mesmo mês do ano passado e caiu 10% em comparação com maio. Segundo ele, o setor perde um pouco do fôlego porque várias empresas estão importando componentes, em vez de comprar o aço e fazê-los no Brasil.

O presidente da São Roberto, Roberto Nicolau Jeha, também diz que junho não foi um mês dos melhores para o setor de papelão ondulado. Ele estima que a expedição do produto ficou no mesmo nível de junho de 2005 e 5% abaixo do resultado de maio. Como Loureiro, diz que a paralisação de atividades em dias de jogo do Brasil explica parte do resultado, assim como o crescimento das importações.

Segundo Jeha, setores que costumam comprar embalagens de papelão - alimentos, material de limpeza, vestuário e calçados - têm recorrido às compras externas, devido ao câmbio valorizado. "No primeiro trimestre, houve crescimento de 2% em relação a igual período de 2005. De janeiro a junho, a expansão deve ser de 1%."

A greve da Receita também causou estragos, como os que sofreram o Pólo Industrial de Manaus (PIM), grande produtor de eletroeletrônicos. O presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, estima que o faturamento neste mês ficará 10% abaixo do esperado devido à greve dos fiscais. De janeiro a abril, as vendas do PIM totalizaram R$ 15,6 bilhões, 12% acima do mesmo período de 2005. Para o primeiro semestre, ele espera crescimento menor em relação a igual período de 2005. Segundo Loureiro, isso mostra que os quatro primeiros meses do ano deram o grande empurrão para o faturamento do pólo, com ajuda da Copa do Mundo e da queda dos juros.

A greve também afetou a indústria química, de acordo com Guilherme Duque Estrada Moraes, presidente da Abiquim, entidade que representa as empresas do setor, embora considere difícil quantificar o prejuízo. Em maio, a produção do segmento aumentou 1,59% em relação a abril. Nos cinco primeiro meses do ano, porém, a produção estagnou, com alta de apenas 0,9%. Ele diz que o o fraco crescimento foi influenciado principalmente pela alta dos preços de matérias-primas, como petróleo, que não pode ser repassada integralmente.

A indústria de resinas termoplásticas, por sua vez, tem mostrado recuperação desde o início do ano, mas ganhou força no segundo trimestre, quando os estoques começaram a ser retomados. "O consumidor de resina prefere comprar agora a esperar para fazer encomendas no futuro por receio de que o preço do petróleo suba ainda mais", diz Alexandrino Alencar, vice-presidente de relações institucionais da Braskem. As vendas internas de resinas subiram 14,6% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período de 2005, mas aceleraram o ritmo e cresceram 18,7% até maio.

Se o desempenho de abril e, ao que parece, o de junho não foi dos melhores, o quadro foi melhor em maio. A economista Giovanna Rocca, do Unibanco, acredita que a produção industrial cresceu entre 0,5% e 1% no mês em relação a abril, em termos dessazonalizados, lembrando do bom desempenho de indicadores como a produção de veículos e a expedição de papelão ondulado. Ela avalia que, no segundo semestre, o PIB deve crescer 1,15% na comparação com o primeiro. A economista Lygia de Salles Freire César, da Rosenberg & Associados, espera um aumento de 1,6% da indústria em maio, também por conta de resultados como a da produção de veículos.

Já Bráulio Borges, da LCA Consultores, é mais pessimista. Para ele, a greve da Receita pode fazer a produção cair 0,7% em relação a abril. Borges diz que o problema é que a paralisação afetou as empresas que dependem de componentes importados. O volume importado pelo Brasil, com exceção dos combustíveis, caiu 9,8% entre abril e maio.(Colaboraram Samantha Maia e Raquel Salgado, de São Paulo, e Patrick Cruz, de Salvador)