Título: Saldo comercial deverá ser de US$ 40 bi, dizem técnicos e Furlan
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 04/07/2006, Brasil, p. A4

O saldo da balança comercial brasileira está encolhendo. Após atingir o pico de US$ 45,8 bilhões nos 12 meses acumulados até março deste ano, a curva se inverteu e o resultado recuou para US$ 44,6 bilhões em junho. Com as importações crescendo em um ritmo superior as exportações, os economistas acreditam que se trata de uma tendência e estimam saldo próximo a US$ 40 bilhões para o fim do ano, resultado inferior aos US$ 44,8 bilhões de 2005. O saldo comercial vinha em uma trajetória ascendente desde julho de 2001, quando estava negativo em US$ 1,6 bilhão.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, projetou ontem, em São Paulo, que o saldo da balança comercial deve ficar "ao redor" de US$ 40 bilhões este ano. O governo estabeleceu, no início do ano, a meta de exportar US$ 132 bilhões em 2006, alta de 11,6% em relação a 2005. O ministro disse que sua equipe está analisando se revisa ou não a meta, já que os resultados do primeiro semestre ficaram "levemente" abaixo da projeção.

Segundo Thaís Marzola, economista da Rosemberg & Associados, a consultoria mantém sua estimativa de US$ 40 bilhões para o saldo da balança comercial, mas "está mais para teto do que para média". A MB Associados já revisou sua projeção de saldo de US$ 40 bilhões para US$ 38 bilhões. De acordo com o economista Sérgio Vale, a exportação ainda está forte, mas devido a commodities como petróleo, já que a quantidade embarcada de várias mercadorias diminuiu. Por outro lado, a importação deve crescer ainda mais, por conta da recuperação do nível de atividade no segundo semestre e do nível do dólar.

No primeiro semestre do ano, as exportações brasileiras atingiram US$ 60,9 bilhões, alta de 13,5% ante igual período de 2005, segundo informou ontem a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). As importações cresceram 21,6% na mesma comparação, para US$ 41,3 bilhões. Já o saldo comercial caiu 0,6%, para US$ 19,5 bilhões.

As exportações de produtos manufaturados cresceram 13,4% no semestre, para US$ 34,0 bilhões. Os embarques de básicos avançaram 15%, para US$ 17 bilhões, enquanto os semimanufaturados subiram apenas 6,8%, para US$ 8,3 bilhões. Júlio Callegari, economista do J.P. Morgan, alerta que os preços de exportação dos manufaturados estão crescendo cerca de 10% ao mês, o que significa que os volumes embarcados subiram pouco.

Depois de participar ontem de um evento com empresários do setor de varejo em São Paulo, Furlan afirmou que o crescimento mais forte das importações já estava previsto, mas reconheceu que está preocupado com os setores intensivos em mão-de-obra, que utilizam muitos insumos nacionais, como têxteis, móveis ou calçados. "Por força do câmbio, esses setores têm perdido competitividade", disse.

Furlan conversou sobre o assunto com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na semana passada. "Decidimos retomar estudos para dar algum alento com medidas que visem estimular as exportações", afirmou o ministro. Com os mercados internacionais mais calmos, Furlan defende que é hora de retomar as propostas e afirma que Mantega deve anunciá-las em breve.

Nas importações, o destaque são os bens de consumo. Estimuladas pelo dólar barato, as compras externas de bens de consumo cresceram 36,6% no primeiro semestre. As importações de bens de consumo duráveis aumentaram 51,3% e as de não-duráveis, 24,8%. Os brasileiros gastaram, por exemplo, 109,4% a mais com carros importados no semestre. As importações de bens de capital subiram 25,8% e a de matérias-primas e bens intermediários, 13,2%.

Em junho, as exportações atingiram o recorde de US$ 11,4 bilhões, aumento de 17,4% pelo critério de média diária. As importações ficaram em US$ 7,35 bilhões, com alta de 24,8%. O bom desempenho das vendas externas em junho surpreendeu o mercado. Na sexta-feira, 30 de junho, as exportações deram um salto e atingiram US$ 1,145 bilhão em um dia.

Os economistas apontam para forte influência do petróleo nos resultados. A média diária das exportações do combustível saltou de apenas US$ 13 milhões nas quatro primeiras semanas de junho para US$ 143 milhões na última semana.

Callegari, do J.P. Morgan, acredita que os dados de maio e junho possam ter sido distorcidos pela greve dos fiscais da Receita Federal. Em maio, as exportações recuaram 0,1% em relação a igual período do ano anterior. O resultado, considerado muito abaixo da média, pode indicar que parte das exportações realizadas em maio só foi registrada em junho devido à greve, contribuindo para a alta de 17,4% dos embarques no último mês. O efeito para a importação é semelhante. As compras externas cresceram apenas 8,6% em maio, mas saltaram 24,8% em junho.