Título: Orlando Silva é o sexto ministro a cair em 10 meses
Autor: Exman,Fernando
Fonte: Valor Econômico, 27/10/2011, Política, p. A6

Orlando Silva, ex-titular do Ministério do Esporte, tornou-se ontem o sexto ministro a deixar a administração de Dilma Rousseff desde janeiro, quando teve início o governo. Desse total, é a quinta demissão ocorrida devido a denúncias de corrupção. Até o fechamento desta edição, a presidente Dilma Rousseff não havia definido o substituto de Silva na Pasta, que deve ser chefiada interinamente pelo secretário-executivo Waldemar Manoel Silva de Souza. O novo ministro pode ser anunciado hoje, após uma nova reunião entre Dilma e a cúpula do PCdoB.

Silva foi acusado de participar de um suposto esquema que desviaria recursos repassados pelo Ministério do Esporte a organizações não governamentais. As denúncias foram feitas pelo policial João Dias Ferreira, que foi filiado ao PCdoB, partido de Silva. O ex-ministro e seus aliados alegam que a acusação foi feita porque Dias Ferreira, responsável por ONGs beneficiadas por recursos do ministério, não teve a prestação das contas de suas entidades aprovada.

"Não há, não haverá e não houve quaisquer provas que possam comprometer a minha honra", declarou Orlando Silva a jornalistas no Palácio do Planalto, após comunicar que pedira demissão.

Silva lembrou que foi alvo de uma série de denúncias que durou 12 dias, e assegurou que o PCdoB permanecerá na base aliada ao governo Dilma no Congresso. "O nosso partido não pode ser instrumento de nenhum ataque ao governo", sublinhou. "Decidi sair do governo para que eu possa defender a minha honra, o trabalho do Ministério do Esporte, o governo e o meu partido."

O presidente do PCdoB, Renato Rabelo, participou da reunião entre Dilma e Orlando Silva que definiu o destino de seu correligionário. "O PCdoB é um partido que mantém uma relação de grande intimidade e identidade com a presidenta e os rumos do governo", afirmou Rabelo após a entrevista de Orlando Silva, acrescentando que a legenda é aliada do PT desde 1989. "O nosso partido não é um partido conjuntural. Nada foi provado do que o acusam. Toda a acusação foi montada em cima de pessoas desqualificadas."

Ministro do Esporte no governo Luiz Inácio Lula da Silva, Orlando Silva permaneceu no cargo a pedido do ex-presidente. No total, foram cinco anos à frente da Pasta, período em que também foi citado no escândalo do uso irregular de cartões corporativos do governo por comprar uma tapioca.

Orlando Silva resistia a pedir demissão, mas sua saída foi impulsionada pela decisão da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a abertura de inquérito contra o agora ex-ministro do Esporte. A decisão tornou a situação de Silva insustentável.

O secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, procurou Orlando Silva na noite de terça-feira para dar início ao processo de sucessão na Pasta. Antes, Carvalho já havia conversado com o presidente do PCdoB sobre o tema. Ontem logo pela manhã, integrantes da cúpula do PCdoB foram ao Palácio do Planalto para uma reunião com Carvalho e Silva. Saíram de lá com a missão de conversar com a bancada do partido no Congresso e indicar um candidato à substituição.

Dilma chegou a dar um ultimato ao PCdoB na noite de terça-feira: ou o partido indicava logo alguém ou a escolha seria dela própria. A presidente sugeriu o nome do atual presidente da Embratur, Flavio Dino, devido à experiência jurídica do ex-deputado. Estava disposta, inclusive, a assumir o desgaste com a família Sarney, adversária de Dino na política do Maranhão. Por outro lado, a escolha poderia beneficiar um candidato da família Sarney na eleição à Prefeitura de São Luís.

Ainda na noite de terça-feira, a cúpula do PCdoB foi para a casa do deputado Aldo Rebelo (SP), quando então decidiu indicá-lo para o cargo. O recado foi dado ao líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), e o assunto era para amanhecer ontem resolvido. Orlando Silva, porém, insistia em permanecer no cargo.

Ex-ministro da coordenação política do governo Lula e presidente da CPI CBF-Nike, Aldo é hoje amigo do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, cuja gestão criticou duramente à época em que dirigiu a comissão. A CPI terminou sem relatório. Posteriormente, Aldo aproximou-se de Ricardo Teixeira e chegou a declarar que havia "evolução na CBF".

A amizade de Aldo com Teixeira joga contra sua nomeação no Palácio do Planalto, pois o ministério é uma peça-chave nas negociações para a votação da Lei Geral da Copa, entre outras medidas relacionadas com a Copa do Mundo de 2014. O governo quer nomear alguém que tenha autoridade para negociar as questões relativas à Copa com a CBF e a Federação Internacional de Futebol (Fifa). No entanto, o maior receio demonstrado no governo é que talvez Aldo não faça a "limpeza" que a presidente deseja na Pasta.

Na Câmara, a manutenção do Ministério do Esporte com o PCdoB agrada ao líder da bancada do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), o maior interessado na manutenção do "status quo": como candidato a presidente da Câmara em 2013, o pemedebista acha que se beneficia da atual partilha do bolo ministerial pela base aliada. Além disso, uma nomeação de Aldo tiraria o comunista da disputa pela presidência da Câmara no ano que vem. PT e PMDB fecharam um acordo para eleger Alves ao cargo. Já a oposição criticou a manutenção do PCdoB no comando do Ministério do Esporte.

Dilma já dera uma sobrevida a Orlando Silva na sexta-feira da semana passada, mas esperava que ele imediatamente adotasse medidas para promover uma "limpeza" no Ministério do Esporte. A faxina não ocorreu, mas nem foi preciso João Dias Ferreira ir à Câmara reforçar as denúncias que fizera contra Orlando Silva. O policial informou a lideranças do PSDB sua desistência de falar à Comissão de Fiscalização e Controle da Casa, o que fez integrantes da base aliada questionarem o poder de fogo do denunciante contra Silva. (Colaboraram Caio Junqueira e Daniela Martins)