Título: Agronegócio brasileiro pede concessões industriais
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 03/07/2006, Brasil, p. A4

O agronegócio brasileiro reagiu "desiludido e preocupado" ao novo fiasco na Rodada Doha, e acha que o país deve fazer concessões na área industrial para ajudar a salvar as negociações. Negociadores brasileiros, por sua vez, chamaram a atenção que a demanda dos países ricos implica, na verdade, corrigir a tarifa máxima para bens industriais de 35% para 10,5% - e não para 15%, como dizem.

"Estávamos apostando todas as nossas fichas na OMC", afirmou Antonio Donizeti Beraldo, representante da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) que acompanhou as negociações em Genebra, onde o sentimento predominante é de que a conclusão da negociação até o próximo mês de dezembro ficou praticamente impossível.

"Se a rodada não for concluída, o prejuízo é cruel em termos de acesso futuro a médio e longo prazos", acredita. Ele lembra que a expansão do agronegócio depende cada vez mais de abertura de novos mercados, ainda mais que "até agora o Brasil e o Mercosul foram incapazes de fazer acordos bilaterais relevantes".

Donizeti nota que a OMC é o único ambiente para se negociar a redução de subsídios domésticos. Em caso de fiasco, os EUA continuarão com o direito de dar subsídios de até US$ 47,7 bilhões por ano. A proposta americana é de reduzi-los para US$ 22,4 bilhões, mas o G-20 pede limite de US$ 12 bilhões para haver corte efetivo.

Se Doha não fechar, os Estados Unidos também podem não eliminar todas as formas de subsídios ao algodão este ano, como ficou acertado na conferencia da OMC em Hong Kong, em dezembro do ano passado. Os americanos perderam a disputa sobre o assunto na entidade, mas até agora não implementaram totalmente as decisões dos juízes.

Para o representante da CNA, a conclusão da rodada vai exigir flexibilidade na área industrial. "Será um teste para o G-20" - o grupo liderado pelo Brasil, onde a Índia resiste à concessões.

Já negociadores brasileiros reagiram ao impacto da demanda de EUA, UE, Japão e Austrália de uma fórmula suíça com coeficiente 15 para reduzir tarifas industriais. Segundo os americanos, isso significaria baixar de 35% para 15% a alíquota máxima no Brasil. Isso é verdade só para tarifas absurdamente altas (1000%, por exemplo), o que não é o caso brasileiro. Simulações da OMC mostram que a alíquota máxima no país deveria cair para 10,5%. Só que haverá flexibilidade para proteger certos segmentos industriais. Dependendo do que o Brasil escolher, a tarifa maior ficaria entre 22,8% e 35%. (ver tabela acima).

Mas o ministro Celso Amorim descarta totalmente o coeficiente 15. Os brasileiros sinalizam algo entre 20 e 30. Se for coeficiente 20, como parece provável - e com as flexibilidades -, a maior tarifa aplicada no Brasil ficaria em pelo menos 23,9%.