Título: Lamy tem a missão de salvar Doha do fiasco
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 03/07/2006, Brasil, p. A4
Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), recebeu mandato para intermediar um acordo entre os países nas próximas semanas em uma tentativa de salvar a Rodada Doha do fiasco total - sentimento que hoje prevalece entre negociadores. O principal foco de consultas é o G-6 (formado por Brasil, EUA, União Européia, Índia e Austrália), de onde deve sair o desbloqueio para um eventual entendimento sobre as reduções de tarifas e subsídios agrícolas e industriais.
Os países pediram que Lamy seja um "facilitador", no rastro do fracasso da reunião de mais de 60 ministros que enguiçou logo na noite de sexta-feira, quando se previa que ela talvez prosseguisse até hoje. Após ouvir os países e testar cenários, Lamy fará uma proposta que "seja igualmente desagradável para todos, mas não o suficiente para ser rejeitada", segundo um importante negociador. Os EUA, isolados e sob pressão, terão de responder se aceitam ou não o acordo. Uma nova ministerial só ocorrerá este mês se as chances de sucesso forem sérias.
UE e Brasil reafirmaram o que vinham dizendo há tempos - que estão prontos a flexibilizar os cortes de tarifas agrícolas e industriais, respectivamente. Já os americanos tinham indicado que poderiam melhorar sua oferta sobre subsídios domésticos, que conduzem a excesso de produção e de oferta e deprimem preços no mercado internacional. Em Genebra, porém, os EUA mostraram-se inflexíveis, martelando que sua proposta atual já é boa demais.
Confirmado o fiasco, a representante chefe de comércio dos EUA, Susan Schwab, reuniu-se no sábado longamente com o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim. E ele saiu animado. O ministro se diz ainda otimista de que um acordo seja fechado até o começo de agosto. Mas o recado dos americanos não varia: o país quer tentar concluir a rodada, só que com base em suas condições. Isso exige enormes cortes de tarifas agrícolas e industriais que os outros países não aceitam, e significaria alterar o mandato da Rodada Doha, como denunciou - e rejeitou - nove grupos de países em desenvolvimento, incluindo G-20.
Schwab já prepara o terreno para o desastre. "Há uma abundância de exemplos de rodadas comerciais que atrasaram e foram ressuscitadas depois", disse, em referência à Rodada Uruguai, que sofreu um colapso em 1990 e só em 1993 foi encerrada.
Lamy inicia sua tarefa nesta terça em Tóquio, em encontro com o primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi. Para o comissário europeu de comércio, Peter Mandelson, se em duas semanas não houver acordo no G-6, a rodada estará mais do que nunca comprometida. Ele alertou que Lamy deverá agir como catalisador, não autor de um acordo.
Está claro que, nas mãos dos negociadores, a rodada não fecha. Como o problema central está no G-6, os ministros também levantaram a possibilidade de uma reunião de presidentes desse grupo à margem da cúpula do G-8, na semana que vem na Rússia. A França, defensora dos subsídios, estaria fora, pois a UE seria representada pelo presidente da Comissão, José Durão Barroso. Os presidentes de Brasil e Índia estarão lá. Só seria preciso convidar o chefe de governo australiano.
Para a UE, o ponto de partida para um acordo agrícola é limitar os subsídios domésticos dos EUA que mais distorcem o comércio a US$ 15 bilhões, ante a proposta americana de US$ 22,4 bilhões (mais que os US$ 18 bilhões concedidos hoje).
Já o secretário agrícola americano, Mike Johanns, insistiu nos "buracos" da proposta de acesso ao mercado do G-20, apontada como base para um entendimento. Pelos seus cálculos, o corte médio tarifário de 54% cai para 40% depois de flexibilidades como a designação de produtos sensíveis. A comissária agrícola européia Marianne Fischer Boel, por sua vez, acenou com uma importação adicional de 800 mil toneladas de carnes com a atual proposta de Bruxelas - o que fez quase rir alguns negociadores do Mercosul, já contentes com 200 mil toneladas.