Título: Argentina não consegue impulsionar industrialização
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 13/12/2004, Brasil, p. A-3

Nestes dez anos, a Argentina viu frustrado seu sonho de usar o Mercosul para impulsionar sua industrialização e ganhar escala para vender mais bens manufaturados. Os investimentos que dotariam as empresas locais de tecnologia para vender ao Brasil e depois ao resto do mundo não apareceram. Desde a criação do bloco, a ambição de retomada do perfil industrial foi abalada pela paridade do peso com o dólar, que, amparado por um forte consenso social, corroeu a competitividade da economia local. Somaram-se a isso choques externos que culminaram na maior crise econômica, social e política da história do país, deflagrada em dezembro de 2001. O resultado foi que, mesmo com a recuperação da economia e de alguns setores industriais a partir da desvalorização cambial, em janeiro de 2002, o perfil exportador da Argentina permaneceu centrado em produtos de baixo valor agregado. Esse comportamento se repete no Mercosul. Desde a formação do bloco o país não consegue aumentar a proporção dos bens de origem industrial sobre o total de sua exportação ao principal sócio, que se mantém ao redor de 50%. Ao mesmo tempo, a participação dos produtos industriais sobre o total das vendas brasileiras ao país permaneceu em torno de 85%. "O Mercosul é um instrumento de inserção internacional para a Argentina, mas, apesar disso, não podemos deixar de reconhecer que desde 1999 o bloco tem significado para nosso país mais custos que benefícios", disse a ex-secretária de Indústria, Debora Giorgi, que atualmente comanda o Centro de Estudos de Negociações Internacionais da União Industrial Argentina, principal entidade empresarial do país. Debora admitiu que os problemas gestados na própria Argentina contribuíram nesse processo de desindustrialização, mas diz que o Mercosul "em vez de ser uma ferramenta para neutralizá-los, acaba sendo um problema adicional". A visão dos empresários argentinos, compartilhada pelo governo, é que é necessário corrigir as "assimetrias" de desenvolvimento industrial para que o bloco volte a ter sentido. E a criação de mecanismos efetivos de coordenação macroeconômica entre os sócios, cuja ausência teria permitido entre outras coisas a desvalorização do real, em 99, é apontada como uma de suas tarefas pendentes. Os argentinos também consideram incompatível com a idéia de união aduaneira a aplicação unilateral, pelo Brasil, de incentivos fiscais para atração de indústrias e a concessão de linhas preferenciais de financiamento à exportação - benefícios que a Argentina não tem como equiparar. Na última sexta, o Brasil recusou a proposta do país vizinho de instituir salvaguardas no bloco, e o governo argentino já dá sinais de que não se conformará com a resposta brasileira. Anteontem, o chanceler Rafael Bielsa afirmou que indicou que seu governo continuará exigindo proteção para sua indústria, porque "durante muitos anos cedemos sem obter benefícios. Isso acabou, temos uma obrigação, que é manter a recuperação econômica, porque isso significa criar trabalho e inclusão". As reclamações tendem a acentuar-se em um ano em que o saldo do comércio bilateral será superavitário para o Brasil. Até novembro, o superávit brasileiro acumulado chegou a US$ 1,5 bilhão. Embora nos últimos meses os envios de produtos industriais da Argentina venham crescendo, mesmo nos anos em que houve grande vantagem para o país vizinho, o saldo no comércio de bens com maior valor agregado foi sempre favorável ao Brasil. A única exceção foi em 2002, quando a crise fez com que a Argentina diminuísse sensivelmente suas importações. "O bom comércio não é aquele em que um dos sócios vende matérias-primas e o outro produtos manufaturados. É preciso comprar e vender as duas coisas, buscando complementariedades", disse o também ex-secretário de Indústria, Dante Sica, diretor do Centro de Estudos Bonaerense (CEB). Sica acredita que mesmo rejeitando a proposta argentina de salvaguardas, o Brasil terá de aceitar algum esquema que permita a sobrevivência e o crescimento da indústria local, o que no plano ideal seria obtido com a integração de cadeias produtivas. Como esse processo é lento, a tese mais defendida pelos argentinos é que setores como têxtil, calçados e eletrodomésticos voltem a ser protegidos. O esquema foi tentado entre 1995 e 1999 mas, segundo Sica, não funcionou porque enquanto o Brasil aproveitou o período para implantar políticas de incentivo a esses setores, a Argentina deixou essa tarefa na mão do mercado. Debora sugere que o chamado regime de adequação volte a ser editado, mas desta vez com prazos mais longos e políticas específicas de modernização. Tolerar a proteção a setores da economia argentina seria a maneira de o Brasil pagar pela liderança que pretende ter no Mercosul e no continente, já que a possibilidade de o país dispor de fundos para ajudar no desenvolvimento dos países menores, excetuando-se eventuais fundos do BNDES, é considerada remota. "Se não forem mecanismos contundentes, que assegurem uma adequação daqueles setores que permanentemente aparecem nos conflitos comerciais e que assegurem a convergência macroeconômica e a eliminação de danos frente a assimetrias, acho que continuaremos trabalhando em um marco de choques e incertezas", afirmou Debora Giorgi.