Título: Investidor pune mercados sem norma internacional
Autor: Adriana Cotias
Fonte: Valor Econômico, 26/06/2006, Eu &, p. D2
Investidores globais pagam menos por ações de companhias de mercados emergentes que adotam práticas contábeis próprias, sem seguir os padrões do International Financial Reporting Standards (IFRS). A conseqüência, segundo relatório produzido por Stephen Cooper e Dennus Jullens, do Banco UBS, é que o custo de capital próprio das empresas acaba sendo mais elevado em economias como as do Brasil, Rússia, China e Índia, do chamado grupo dos BRIC.
Os analistas destacam que, enquanto China e Rússia já seguem o IFRS em alguma medida, Brasil e Índia estão um passo atrás. Em março, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira estabeleceu 31 de dezembro de 2010 como a data final para que bancos e demais companhias financeiras se enquadrem às normas internacionais. Mas para os demais segmentos corporativos não houve nenhuma definição de prazo. Já o Institute of Chartered Accountants of India (ICAI) vem, aos poucos, alinhando as suas práticas contábeis com as do IFRS sem, contudo, estabelecer um cronograma para adotá-las na íntegra.
Nesse quesito, o país entre os BRIC que está mais adiantado é a Rússia, que tinha colocado 2005 como meta para o enquadramento dos bancos e de companhias abertas. Embora não tenha cumprido o prazo, os analistas do UBS afirmam que já houve muito progresso na apresentação das demonstrações financeiras à luz do IFRS. O ministro da China e o International Accounting Standard Board (IASB), por sua vez, anunciaram formalmente que os padrões de contabilidade chinesa vão convergir para as normas do IFRS em janeiro de 2007. Já no ano passado, o país adotou 38 novas contas que estão substancialmente em linha com àquelas constantes no IFRS.
Para os países emergentes, enquadrar-se às normas contábeis internacionais faz parte da transição de uma economia mais centralizada para uma economia de mercado, defendem Cooper e Jullens. "Aparentemente os investidores globais têm muita dificuldade para obter informações confiáveis em companhias de mercados emergentes e requerem um prêmio maior como compensação", dizem. Conseqüentemente, continuam, isso sugere que na avaliação das empresas os analistas também colocam um desconto pela falta de transparência.
Entre as diferenças da contabilidade brasileira com a do IFRS está, por exemplo, a forma como as empresas tratam os benefícios a empregados. Enquanto o IFRS determina que ativos previdenciários sejam corrigidos pelo valor de mercado e que obrigações e pagamentos estejam em valor presente, no Brasil se usa o custo histórico. E no caso de acordos operacionais envolvendo troca de ações ordinárias (com direito a voto), por aqui se adota ou o método de combinação de interesses, em que se soma os valores contábeis das sociedades, ou o método de compra, em que se cria um fundo de comércio (o valor do negócio que supera o contábil), que será amortizado contra os resultados ao longo dos anos. O IFRS só reconhece o método de compra, sem amortização.
Outra diferença está no tratamento dado aos derivativos, que no Brasil não são reconhecidos no balanço, mas os ganhos e perdas com as posições aparecem nas demonstrações de resultados. Pelo padrão IFRS, os derivativos são incluídos no balanço pelo valor justo e as alterações de preços constam nos resultados.
Apesar dos avanços ainda a fazer na contabilidade, os analistas do UBS reconhecem que os países do bloco dos BRIC vêm aprimorando as suas práticas corporativas, instituindo bons princípios de governança, tal como a nomeação de diretores independentes, estabelecendo comitês de auditoria e instituindo maior abertura às suas demonstrações financeiras.