Título: Mercado teme que alta do juro leve a recessão
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 26/06/2006, Finanças, p. C8
Os banqueiros centrais deveriam ser calmos, um pouco chatos até. Mas os presidentes regionais do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, parecem ter sido tomados por um pânico súbito em relação à inflação. Praticamente todos os funcionários do Fed vêm demonstrando preocupação com a alta dos preços. Ben Bernanke, o presidente do Fed, alertou para a inflação "inoportuna" em 5 de junho. Desde então, seus colegas vêm declarando que ela está se mostrando "problemática", além do "nível de conforto" e até mesmo "corrosiva".
Esses comentários não se perderam nos mercados financeiros, que agora dão como certo que o juro referencial será elevado em um quarto de ponto percentual, para 5,25%, na reunião dos dias 28 e 29, do comitê de mercado aberto do Fed, o FOMC. A julgar pelos preços dos contratos futuros, os mercados vêem uma chance ainda maior de mais uma alta de um quarto de ponto percentual em agosto. Vários observadores acreditam que os juros de curto prazo atingirão 6% até 2007.
Menos de dois meses atrás, Wall Street temia que o Fed sob o comando de Bernanke pudesse ser muito brando com a inflação. Agora o mercado foi tomado por um temor que é exatamente o contrário. Um coro crescente reclama que os funcionários do Fed ficaram obcecados com os números mensais da inflação e que essa fixação os levará a elevar demais as taxas de juros e lançar a economia em uma recessão. David Rosenberg, principal economista da Merrill Lynch, aposta que as chances de uma recessão em 2007 são maiores de 40%.
A idéia do temor exagerado do Fed com a inflação já vem de vários trimestres. Especialistas em estatísticas apontam que as altas recentes nos preços ao consumidor se devem a uma aceleração do custo atribuído da posse de residências, um índice artificial que é calculado a partir dos preços dos aluguéis. Segundo a argumentação, como ninguém paga esse preço, a inflação que ele provoca deveria ser descontada. Outros economistas avaliam que com a produtividade elevada e os salários estáveis, uma espiral perniciosa nos índices salariais do tipo que esteve por trás da disparada da inflação na década de 1970, é improvável. Os preços mais altos da energia podem contribuir temporariamente para a alta da inflação, mas com os custos da mão-de-obra tão baixos, essa alta extraordinária não pode durar.
Esses críticos têm alguns bons argumentos. Os banqueiros centrais claramente ficaram assustados com o salto recente do "núcleo" do índice de preços ao consumidor (IPC). Essa medida exclui os preços voláteis da energia e dos alimentos. Ao longo dos últimos três meses esse índice subiu a uma taxa anualizada de 3,8%, a maior em mais de uma década.
Mas grande parte desse salto se deve ao aumento dos custos residenciais (que representam quase 40% do núcleo do IPC), especialmente na categoria de "aluguel equivalente de proprietários", que estima o custo de vida em uma casa levando em conta os aluguéis cobrados em imóveis similares. Embora esta medida faça sentido (vivendo na casa própria, você abdica da renda com aluguel), ela pode estar no momento exagerando as pressões inflacionárias.
Como o mercado imobiliário está esfriando, menos pessoas estão comprando residências, optando pelos aluguéis. Isso vem elevando os contratos de aluguel. Por sua vez, o aluguel dos proprietários também subiu, muito embora os proprietários de residências não tenham visto nenhuma mudança nos custos de se ter uma casa própria. Como o aluguel equivalente dos proprietários é estimado excluindo os preços dos serviços públicos, as quedas recentes nas contas de gás e eletricidade paradoxalmente vêm piorando as coisas.
Em resumo, os subterfúgios estatísticos estão distorcendo o quadro. Mas, o que os banqueiros centrais deveriam fazer a esse respeito? Alguns sugerem que a receita do aluguel equivalente dos proprietários deveria simplesmente ser tirado do índice de inflação. É isso o que os europeus fizeram. Mas, banqueiros centrais confiáveis não podem subitamente ignorar um componente inflacionário quando ele começa a se comportar de uma maneira que eles não gostam. Foi este o erro cometido na década de 1970, quando os funcionários dos bancos centrais excluírem alguns preços de seus índices.
O ponto mais importante é que, mesmo que se elimine os custos residenciais, a aceleração recente do núcleo do índice de preços ao consumidor não desaparece. E várias outras medidas sugerem que a inflação está na ponta superior e continua subindo. O deflator do núcleo dos gastos pessoais com consumo (PCE, na sigla em inglês), um índice do qual os funcionários do Fed gostam, subiu 2,1% no período de 12 meses até abril. A "média reduzida do deflator PCE", calculada pelo Fed de Dallas, que exclui os preços que mais caíram e subiram antes de fazer uma média ponderada do resto, subiu 2,4%. A "média do índice de preços ao consumidor", calculada pelo Fed de Cleveland, subiu 3%. Olhe para esses números e surpreende menos que os banqueiros centrais estejam agora tão mais preocupados com a inflação do que estavam otimistas no começo do ano.
Um dos motivos é que os funcionários do Fed, assim como os mais céticos, se sentiam mais confortáveis com a falta de pressão dos salários. Graças a um forte crescimento da produtividade e um aumento bem modesto dos salários, o custo dos trabalhadores em relação à sua produção diminuiu o ritmo de crescimento, avançando apenas 0,3% no último ano, mesmo com a taxa de desemprego caindo para 4,6%. É difícil imaginar como os preços poderiam sair de controle quando os custos com a mão-de-obra estão tão controlados.
Então, por quê os banqueiros centrais de repente passaram a se preocupar? Uma explicação é que outros determinantes da inflação de curto prazo, especialmente as expectativas inflacionárias, estão dando sinais de vida. Pesquisas mostram que a expectativa em relação à inflação dos preços ao consumidor aumentou desde o ano passado. As declarações que pregam uma maior ação preventiva sem dúvida estão sendo feitas para acabar com essa expectativa e com a idéia de que o Fed de Bernanke tem a "mão leve".
Alguns banqueiros centrais também estão atentos à explicação mais popular para o fraco aumento dos salários, principalmente que a integração da China e Índia na economia mundial vem pressionando os trabalhadores de outras partes do mundo. Em pronunciamentos recentes, tanto Don Kohn, vice-presidente do Fed, e Janet Yellen, presidente do Fed de San Francisco, argumentaram que a globalização vem tendo um efeito apenas modesto sobre a inflação nos Estados Unidos. Grande parte do impacto da redução de preços provocada pela China poderá se mostrar temporária. Ambos afirmaram que se a globalização tornou a inflação nos EUA menos sensível às condições domésticas, então ela também provocou um aumento no custo dos erros políticos. Se a inflação sair de controle será mais difícil tirar esse custo do sistema.
Todos esses são pontos que fazem sentido e, em resumo, a preocupação dos banqueiros centrais com a inflação parece prudente, mais do que uma fobia. Afinal, a política monetária continua sendo não restritiva. As taxas de juros estão apenas positivas em termos reais. E embora o ritmo de crescimento esteja diminuindo, há poucos sinais de estagnação da economia.
O problema é que a postura austera do Fed poderá ter o efeito oposto do pretendido. As nuances estatísticas do aluguel recebido pelos proprietários sugerem que o núcleo da inflação poderá subir ainda mais e continuar acima da fronteira estabelecida por Bernanke para o resto do ano, mesmo com a redução do crescimento econômico. Se quiserem evitar uma alta exagerada dos juros, os funcionários do Fed poderão em breve ter de explicar por que os números que eles agora classificam como "problemáticos" e "corrosivos" não são, afinal, tão preocupantes. Essa tarefa seria mais fácil se sua retórica tivesse sido mais chata em primeiro lugar.