Título: Zona do euro caminha em linha reta para a implosão
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2011, Opinião, p. A10
A crise na zona do euro segue um caminho reto rumo a um final desalentador. Desde o início, as turbulências com as dívidas soberanas dos países da união monetária indicavam riscos acentuados para seus financiadores, os grandes bancos europeus, que já haviam saído bastante feridos da hecatombe financeira de 2008, que ainda não terminou. A pequena Grécia não teria potencial para causar muita devastação, não fosse pelo fato de ela ter escancarado várias falhas da criação da moeda única, que ficaram dormentes no período de prosperidade. Os líderes europeus deixaram os gregos serem fritos pelo mercado, até que um dia acordaram com Portugal e Irlanda à beira da bancarrota e, depois, com a instabilidade batendo às portas da Itália e Espanha. A crise continuou sem solução e se a Itália finalmente cair, dificilmente o euro sobrevive, e vários grandes bancos podem também desaparecer junto com a moeda única.
A cada dia a onda de desconfiança se amplia. Silvio Berlusconi era a pessoa errada para implantar programas de austeridade que revertessem a desconfiança sobre a enorme dívida italiana, de 119% do PIB ou € 1,9 trilhão. Berlusconi esperneou, mas ações rápidas colocaram em seu lugar Mario Monti, um eurocrata que formou um gabinete de acadêmicos e técnicos, ao qual os partidos políticos desejaram boa sorte, mas mantiveram ostensivamente distância. Após a troca de comando, os títulos da dívida de dez anos continuaram pagando rendimentos acima dos temerários 7% que levaram aos pedidos de socorro de Grécia, Portugal e Irlanda.
Os custos da rolagem da dívida da Espanha, a quarta maior economia do bloco, chegam rapidamente ao limiar de 7% (6,97% ontem), em uma nova onda altista. Haverá eleições gerais no domingo e o incumbente Partido Socialista deve ser fragorosamente derrotado pelo Partido Popular. O pouco carismático Mariano Rajoy, o vencedor segundo as pesquisas, não disse muita coisa do que irá fazer em relação à grave situação econômica do país. Dificilmente executará muita coisa diferente das que fez seu antecessor Jose Luiz Zapatero. Ele seguramente não tem boas notícias a dar aos eleitores - as razões básicas de sua ambiguidade e reticência.
Quando Itália e Espanha entraram na zona de perigo, a crise da zona do euro mudou de qualidade, sem que os líderes europeus, com isso, tenham se mostrado mais eficientes para detê-la. Em uma reunião em 26 de outubro cujas decisões só acalmaram os investidores por dois dias, os líderes da zona do euro conseguiram deixar inoperante um dos poucos instrumentos contra a crise às mãos, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Por não desejarem capitalizá-lo, criaram dois mecanismos para buscar dinheiro de investidores privados e fundos soberanos para alavancar os hoje parcos € 250 bilhões disponíveis. Ambos se revelaram ineficientes, por um defeito congênito - a principal economia europeia, a Alemanha, não aceitou colocar nele mais um centavo de garantia adicional.
Agora, há uma fuga em massa dos títulos da dívida, abarcando não só os papéis de países já suspeitos mas também os da França, Áustria, Holanda, Bélgica e Finlândia. Essa deterioração das expectativas é acompanhada de um progressivo estrangulamento do funding externo dos grandes bancos europeus e, em primeiro lugar, dos franceses. Eles tinham em julho obrigações de US$ 200 bilhões nos mercados de curto prazo americanos, mas essa fonte está secando rapidamente. Ao mesmo tempo, já há movimentos de troca de títulos entre bancos para arrumar garantias para que possam continuar a ser financiados pelo Banco Central Europeu. Os riscos para o sistema financeiro estão crescendo exponencialmente e a perspectiva de uma recessão já no fim do ano na união monetária só acrescenta mais um ingrediente ruim em uma mistura já explosiva.
Para a Alemanha, as coisas são claras. O partido da premiê Angela Merkel, o União Democrática Cristã, trata de encontrar formas de deixar alguns países saírem da zona do euro e criar elementos de uma política fiscal única, à qual não faltará a dose indicada de punição aos países que não se enquadrarem. Para alguns governos, se o BCE não assumir sua função de emprestador de única instância tudo está perdido. Para analistas, se o BCE tem limitações legais, a transformação do FEEF em banco para receber empréstimos do banco central não tem. Falta vontade política e sem ela a zona do euro marcha para a implosão.