Título: Dilma deve cobrar de europeus ações contra a crise
Autor: Exman,Fernando
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2011, Brasil, p. A6

Depois de visitar os principais parceiros do Brasil na América do Sul e a China, receber o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e participar da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, a presidente Dilma Rousseff faz sua estreia hoje em palco europeu, num momento em que o continente se encontra no epicentro da crise financeira global.

Em uma passagem de pouco mais de dois dias por Bruxelas, Dilma se reunirá com autoridades belgas e participará da quinta reunião de cúpula entre o Brasil e a União Europeia (UE). Será assinado um acordo de "céu aberto", que dará liberdade para a atuação de empresas aéreas em ambos os territórios. No entanto, a crise financeira tende a ser o foco dos debates que ocorrerão até amanhã, quando Dilma seguirá para a Bulgária, terra natal de seu pai, e a Turquia.

Ontem, depois de desembarcar na Bélgica, Dilma aproveitou o tempo livre para visitar um museu. Hoje, a presidente deverá reunir-se com o secretário-geral da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Jérôme Valcke, para tentar aparar as arestas entre o Brasil e a entidade, provocadas pelo texto do Projeto de Lei Geral da Copa.

Durante a passagem de Dilma por Bruxelas, o governo brasileiro deve valer-se da reunião com a cúpula da UE para reafirmar as cobranças por ações que resultem numa solução para a crise financeira e num plano de resgate da economia grega. Nas palavras de um auxiliar de Dilma Rousseff, será uma oportunidade para o Brasil "dar algumas lições".

Os europeus não fugirão das cobranças, mas sinalizam que também gostariam de ouvir esclarecimentos de integrantes do governo brasileiro sobre a escalada da inflação no Brasil, as oscilações cambiais no país e as políticas de incentivo e proteção à indústria nacional adotadas pela administração Dilma Rousseff. "Temos mais a explicar o que estamos fazendo, pois isso tem impactos globais", reconheceu um funcionário da UE.

Brasil e UE devem ainda discursar em favor de avanços nas negociações para a assinatura de um acordo de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul, mas nada além disso. O Brasil não tem um mandato de seus parceiros sul-americanos para negociar em nome do Mercosul. Além disso, a crise financeira internacional e o clima pré-eleitoral na França e na Argentina não criam um ambiente favorável à assinatura de um acordo para a abertura de mercados.

Dilma também participará de seminários com empresários em cada uma das escalas de seu périplo europeu. A expectativa do governo brasileiro é que a corrente comercial com a UE supere US$ 100 bilhões em 2011. No ano passado, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o intercâmbio comercial bilateral totalizou US$ 82,26 bilhões. Ainda de acordo com dados do governo, o Brasil é o quarto principal destino dos investimentos europeus no mundo, depois apenas de Estados Unidos, Suíça e Canadá.

O estoque de investimentos europeus no país totaliza aproximadamente US$ 180 bilhões. Já o Brasil acumula um estoque de investimentos de cerca de US$ 80 bilhões na UE, valor que coloca o país na sexta posição no ranking dos maiores investidores no bloco.

Mas, se por um lado as conversas sobre economia ocorrem em um momento delicado, Brasil e UE tentarão dar um passo adiante na sua parceria política. Durante a reunião de cúpula será lançada uma atualização, para o período de 2012 a 2014, do plano de ação conjunto assinado pelas duas partes em 2007, quando a parceria estratégica entre Brasil e UE foi fechada. A UE tem mecanismos semelhantes apenas com Estados Unidos, China, Índia, Canadá, África do Sul, Japão, Rússia e México.

Brasil e UE reafirmarão como estratégicas as áreas comercial, de regulação do mercado financeiro, de cooperação em inovação e de desenvolvimento de tecnologias, de agricultura, energias renováveis, direitos humanos e mudanças climáticas. O Brasil busca ainda uma maior cooperação com a UE nos fóruns multilaterais, como o G-20 e as negociações sobre o combate ao aquecimento global. O conflito na Líbia e a primavera árabe também estarão na agenda.

Num afago a Dilma, os europeus devem prestigiar um dos programas lançados recentemente pelo governo, anunciando que concederão bolsas de estudos a estudantes brasileiros. A UE, por outro lado, quer que suas empresas participem das obras de infraestrutura para a Copa do Mundo de futebol de 2014 e da Olimpíada de 2016. "É um empenho em renovar a parceria. Não é uma situação difícil [a crise financeira global] que vai atrapalhar, este é o momento de mostrar que a parceria é sólida", disse um diplomata brasileiro.

Em março, Dilma chegou a prestigiar, em Portugal, a cerimônia de concessão do título de doutor honoris causa ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Universidade de Coimbra. Na ocasião, aproveitou para reunir-se com líderes portugueses. Diplomatas brasileiros e europeus, porém, têm a mesma visão: a visita de Dilma a Portugal não foi uma missão oficial e não deixa de ser simbólico que a primeira missão da presidente na Europa seja feita ao bloco como um todo, e não a um país específico.

Estão na comitiva de Dilma os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Fernando Pimentel (Desenvolvimento), Aloízio Mercadante (Ciência e Tecnologia), Helena Chagas (Comunicação Social), Ana de Hollanda (Cultura), Paulo Bernardo (Comunicações) e o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Outro integrante é Ziraldo. O cartunista tentará fazer uma aproximação entre o Brasil e o Salão do Humor de Gabrovo, local onde nasceu o pai da presidente.