Título: Dirceu mantém pressão contra Palocci
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 15/12/2004, Política, p. A8
Se em público é só elogios ao ministro Antônio Palocci, internamente e em conversas com parlamentares o ministro da Casa Civil, José Dirceu, voltou a atacar o ministro da Fazenda e a política econômica. As críticas já incomodam os assessores próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, embora esteja insatisfeito com os ataques, anda preocupado com a fase atual do ministro da Casa Civil. Nas conversas com parlamentares, amigos, jornalistas e integrantes do governo, Dirceu tem criticado a política econômica, ignorando os resultados positivos que ela vem produzindo este ano. Seus alvos são a política monetária e a manutenção, em 4,5% do PIB, do superávit primário das contas públicas. "Ele evita ataques públicos ao ministro Palocci, mas nas conversas informais não o perdoa", confidenciou ao Valor um interlocutor do ministro da Casa Civil. Na opinião de Dirceu, segundo relato de assessores do presidente, a política de juros conduzida pelo Banco Central está equivocada. Além disso, ele considera excessivamente elevada a economia que o governo vem gerando para honrar parte da despesa com juros e, assim, estabilizar e reduzir a dívida pública. Na opinião do ministro, a atual política de austeridade foi necessária para que o governo Lula enfrentasse a crise de confiança que encontrou ao tomar posse. Na sua avaliação, no entanto, manter os juros elevados - a taxa básica (Selic) está em 17,25% ao ano - e o superávit primário no nível atual inviabilizará a retomada da economia, prejudicando o projeto de reeleição do presidente Lula em 2006. Para Dirceu, a inflação já deixou de ser um problema e o desafio, agora, é encontrar formas para financiar o desenvolvimento. A irritação de Dirceu tem se dirigido a quatro assessores do ministro Palocci: Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), Afonso Bevilaqua (diretor de Política Econômica do BC), Eduardo Loyo (diretor de Estudos Especiais do BC) e Joaquim Levy (secretário do Tesouro Nacional). Oriundos da PUC do Rio, Loyo e Bevilaqua são tidos como demasiadamente liberais, da mesma escola que reinou no comando da economia durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Nos últimos dias, o ministro da Casa Civil teria desenvolvido uma teoria que, no Palácio do Planalto, é vista como conspiratória. Segundo essa teoria, os tucanos, liderados por Meirelles, que antes de assumir o comando do BC foi eleito deputado pelo PSDB de Goiás, estão comandando o Banco Central. As críticas à política econômica foram explicitadas por Dirceu, há duas semanas, durante reunião dos ministros do PT com o presidente Lula. O ministro chegou a ser grosseiro com Palocci ao interromper abruptamente a sua exposição no encontro. Coube a Lula fazer a réplica em defesa de Palocci, que a política econômica não mudará. O comportamento de Dirceu é atribuído, no Palácio do Planalto, ao seu mau momento no governo. Desde que Lula reiterou que ele permanecerá como gerente das ações do governo e que não terá de volta o comando da articulação política, Dirceu ficou abatido e passou a ter um comportamento errático. Ele se sente injustiçado e fica incomodado também com o destaque dado pela mídia ao ministro Palocci. Um parlamentar do PT com trânsito no Planalto acha que Palocci erra quando não refuta a imagem de super ministro atribuída a ele. "Palocci depende de Dirceu e Dirceu de Palocci: não pode haver desequilíbrio", diz o parlamentar. Lula e três ministros - Luiz Dulci (Secretaria-Geral da presidência), Luiz Gushiken (Comunicação do Governo) e o próprio Palocci - têm trabalhado pela estabilidade de Dirceu. Para eles, o ministro é crucial para a própria estabilidade do governo, é poderoso, mas erra por nunca ter aceitado o modelo econômico atual e por não ter se adaptado à função de gerente.