Título: Pesquisas se multiplicam no Pantanal
Autor: Lopes, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 11/10/2011, Agronegócios, p. B12
Quando soam as badaladas do sino que põe a fazenda Nhumirim em marcha, pontualmente às 06h00, a mesa posta para o café da manhã já está lotada de pesquisadores, estudantes, funcionários e crianças que estudam na escola reaberta esse ano em uma casa ao lado da sede. As quase 30 pessoas dispostas para o desjejum pantaneiro, que não dispensa a mistura de arroz, feijão e carne, já haviam sido acordadas mais de meia hora antes pela sinfonia dos pássaros no nascer do sol. A temperatura já passa dos 30º Celsius e logo as picapes partem para mais um dia de coleta das informações que serão transformadas em soluções e alternativas de renda para a região.
Localizada na Nhecolândia, uma das subdivisões do Pantanal, a Nhumirim é o posto avançado da Embrapa no bioma. Localizada a 120 quilômetros da área urbana de Corumbá, Mato Grosso do Sul, a unidade só pode ser acessada por avião ou após cinco horas de sacolejos por uma precária estrada de terra. Nas cheias, é impossível chegar sem recorrer a barcos em alguns trechos. Quando as águas baixam, como agora, o perigo é atolar nas partes arenosas do percurso. Nesse caso, o melhor é aproveitar para admirar a flora e a fauna do lugar, já que a ajuda vai demorar. Jacarés, cobras, pacas, veados, macacos, garças e tuiuius, entre muito outros animais, fazem companhia a quem espera em meio ao zumbido dos insetos.
A Nhumirim está no município de Corumbá, depois do Morro do Urucum, onde as mineradoras extraem sobretudo ferro e manganês, e após transposto o rio Paraguai, um dos soberanos naturais do Pantanal. Na manhã do dia 28 de setembro, ao mesmo tempo em que a reportagem do Valor decolava rumo à fazenda Rancharia, onde conheceria a criação de bois orgânicos retratada na edição da última segunda-feira, duas equipes da Embrapa saíam da fazenda em busca de macacos e porcos monteiros. Outros especialistas trabalhavam em um projeto de desenvolvimento de "plástico verde" com o uso de fibras nativas. Por causa das parcerias da estatal, estavam ali um pesquisador australiano e outro indiano, cidadão americano, radicado na Dinamarca. Movimento considerado normal em época de estiagem.
Ampliar imagem
Cartão posta do Pantanal, o tuiuiu é companhia constante nesta época no bioma
Com 4,3 mil hectares, menor que a média do Pantanal, a Nhumirim é autossustentável. Abriga gado nelore e o pantaneiro tucura, além de cavalos típicos do Pantanal - baixos, mas fortes e exímios nadadores. Como explicam os pesquisadores Urbano Gomes Pinto de Abreu e André Steffens Moraes, da Embrapa Pantanal, a venda de animais ajuda a pagar as contas. Como a rede elétrica não chegou à região, um gerador a diesel passa parte do dia ligado. Quatro famílias vivem na fazenda, que tem 13 funcionários. Na escola, tocada em parceria com a prefeitura de Corumbá, são nove alunos e um professor. E, nesta época, em média 20 pessoas, entre pesquisadores, bolsistas e visitantes, contribuem para elevar o movimento e os custos.
Como não há eletricidade, a maior parte do material recolhido alimenta pesquisas na sede da Embrapa Pantanal, na zona urbana de Corumbá, ou em outras unidades da estatal espalhadas pelo país. E a fase de desenvolvimento dessas pesquisas em Mato Grosso do Sul é particularmente profícua. Depois de décadas de coleta de informações no Pantanal, bioma ainda mais complexo em razão de um imprevisível regime de inundações que varia de ano para ano, é hora de acelerar o processo de desenvolvimento de saídas sustentáveis para ambiente e população. É necessário. Se as planícies do Pantanal ainda preservam 85% de sua vegetação natural, nas bordas do bioma, mais elevadas e menos suscetíveis a inundações, o desmatamento avança aceleradamente.
"No passado, tentamos adaptar tecnologias de fora e muitas coisas não deram certo", diz a pesquisadora Aiesca Oliveira Pellegrin, chefe de pesquisas e desenvolvimento da Embrapa Pantanal. "Hoje conhecemos o bioma suficientemente bem para propormos tecnologias adaptadas à região. Mas é preciso entender que, aqui, a própria diversificação de atividades tem limites", afirma Emiko K. de Resende, chefe-geral do centro pantaneiro da estatal federal. "Para ganhar dinheiro no Pantanal, é preciso ser extremamente elástico".
Emiko, que já foi secretária do Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, desenvolve trabalhos no bioma desde 1985, um ano depois de a unidade de pesquisas da Embrapa no Pantanal ter conquistado o status de "centro". Ela não reclama do orçamento disponível para os trabalhos que desenvolve - R$ 871,7 mil em 2011, ante R$ 780 mil no ano passado - e informa que hoje o centro abriga 41 pesquisadores. Em linha com o discurso dos técnicos e especialistas, a sede de Corumbá está em obras para comportar novas salas e laboratórios. As marteladas aumentam a saudade do som difuso da passarada em Nhumirim. O calor é mais intenso.
Pela surpreendente riqueza que contém, o Pantanal atrai, além de turistas - menos do que o esperado, muitos dos quais interessados na temporada de pesca, que está aberta nessa época -, institutos de pesquisa e universidades do mundo todo, além de jornalistas e interessados em comprar terras ou investir na produção, especialmente de gado. Mas quase tudo passa pela Embrapa, seja na sede ou na Nhumirim, que em tupi guarani significa "campo pequeno". Geoprocessamento, vida selvagem, solos, sanidade, nutrição, recursos hídricos e pesqueiros, apicultura, para tudo há estrutura para pesquisas na sede.
A chefe-geral afirma que pecuária extensiva, suinocultura, aquicultura, pesca e turismo estão entre as frentes que merecem atenção especial da Embrapa Pantanal. "A partir dos trabalhos que desenvolvemos com pecuária extensiva, por exemplo, podemos negociar com os governos [estadual e federal] benefícios a quem mantiver o foco na sustentabilidade da atividade, com a preservação da flora e da fauna. Os produtores precisam de uma compensação por isso".
Emiko de Resende não tem dúvidas de que o projeto que prevê a chegada da eletricidade aos intestinos do bioma, inclusive à fazenda Nhumirim, beneficiará as pesquisas realizadas na região, uma vez que a manipulação dos materiais coletados ganhará agilidade. Mas a experiente pesquisadora também alerta para o fato de que, espalhadas sem critérios rígidos pelos rios, as cerca de 100 pequenas centrais hidrelétricas que iluminarão o Pantanal poderão ter reflexos sobre o regime de inundações e facilitar a devastação de um ambiente que já sente a ação humana. Estuda-se, por exemplo, os motivos que levaram ao aparecimento de onças pintadas no entorno da Nhumirim, onde antes só se avistava onças pardas. Até agora, a mineração, mesmo longe da Nhecolândia, é a principal suspeita.
O jornalista viajou a convite da Embrapa Pantanal