Título: Crédito rural atrai banco médio
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2004, Finanças, p. C1
Depois dos gigantes do varejo, agora é a vez dos bancos médios e até pequenos oferecerem crédito rural. BankBoston, Sofisa e ABC Brasil são alguns dos que estão investindo com entusiasmo na área agrícola, colaborando para a expansão do crédito rural, que saltou 81% nesta década, de R$ 27,1 bilhões em 2000 para R$ 49,1 bilhões em setembro. A alta dos preços internacionais das commodities agrícolas, o desenvolvimento tecnológico e a flexibilidade cambial melhoraram os resultados do setor, reduzindo o risco e abrindo espaço para novos negócios. "Surgiram oportunidades diferenciadas para os bancos privados como o financiamento de exportações", afirmou o superintendente executivo do commercial banking do BankBoston, Olívio Mori Junior. O vice-presidente do Banco Sofisa e diretor da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), André Jafferian Neto, afirmou que o crédito rural tornou-se atraente à medida que a agricultura brasileira aumentou a produtividade e capitalizou-se com a elevação dos preços internacionais e câmbio mais adequado. A força compradora da China também compõe o cenário. A área ocupada pela agricultura cresceu. O avanço da tecnologia agrícola permitiu a abertura de novas fronteiras como o cerrado. Nem tudo é róseo, acrescentou Jafferian Neto. A escalada do preço do petróleo está encarecendo os insumos agrícolas; e alguns produtos, como a soja, estão em queda. A liberação de recursos do Moderfrota para a compra de equipamentos agrícolas sofreu atrasos. O crédito rural sempre foi um negócio dos grandes bancos de varejo por dois motivos principais. Um deles é que os bancos grandes têm muito depósito à vista e 25% desses depósitos têm que ser canalizados para o crédito rural. O outro motivo é a disponibilidade de rede de agências ampla e pulverizada para chegar perto dos agricultores, espalhados pelo interior do país. No entanto, essas premissas não valem mais. Banco de rede relativamente pequena (82 pontos de venda), o BankBoston está dando crédito a um produtor de algodão no cerrado de Mato Grosso, em parceria com uma indústria de defensivos, que tem gente no campo para monitorar a safra. O BankBoston tem até um bom volume de depósito à vista - R$ 1,4 bilhão de acordo com os dados de junho do Banco Central (BC) -, embora inferior ao dos grandes bancos. No entanto, estuda com a matriz, o americano Bank of America, segundo maior do mundo, trazer US$ 30 milhões para um produtor. Não só o volume impressiona, mas também o prazo: os recursos devem ser concedidos por cinco anos, com um a dois de carência. Da carteira de R$ 4,5 bilhões de negócios da área de corporate commercial and investment bank, a participação do agribusiness cresceu de 12,5% no final do ano passado para 17,5%. O número de clientes passou de 317 para 351 no mesmo espaço de tempo. Somente no crédito agrícola o banco tem R$ 200 milhões. Até o final da década de 90, o BankBoston atuava pouco no agribusiness, lembrou Mori Junior. O banco operava com algumas usinas e fábricas de defensivos no Estado de São Paulo. Começou então a prospectar negócios junto a cooperativas e ao setor sucroalcooleiro, ampliando o horizonte também para a região Sul. Nessa primeira fase, o banco realizava operações até um ano de crédito rural, financiamento ao comércio exterior, serviços e capital de giro. "Unimos o útil ao agradável", afirmou o executivo, lembrando que o banco é forte no financiamento ao comércio exterior. No ano passado, o BankBoston, resolveu mergulhar de vez no novo negócio. A equipe foi reforçada e o alvo foi estudado. "O banco procurou entender o PIB agrícola, quais são os principais produtos, onde são produzidos, qual a concorrência e como o banco poderia se localizar nesse mercado", disse Mori Junior. Foram ampliados os setores escolhidos com a inclusão de produtores de soja, frigoríficos, insumos, açúcar e álcool, traders e cooperativas. Hoje, o banco atua em 15 setores, incluindo café, aqüicultura (tilápia e camarão), avicultura, frigorífico, laticínios, curtumes, frutas cítricas e soja. Como parte da estratégia, foram nomeados 18 gerentes de conta para a área de agronegócios e analistas encarregados de avaliar riscos e oportunidades. Em outra frente, o banco passou a desenvolver operações estruturadas e produtos especiais, como a administração de caixa para cooperativas e empresas de defensivos. Uma das características especiais desse produto é o pagamento flexível, que permite aos compradores de defensivos programar os pagamentos no site do banco e até emitir o boleto para a data escolhida, conforme os prazos de venda da safra. O sistema dá ao cliente - a empresa de defensivo - o controle dos pagamentos recebidos e previsibilidade do fluxo de caixa. O BankBoston também repassa recursos do BNDES. O volume total é de R$ 180 milhões e só no Moderfrota, destinado à compra de máquinas e equipamentos, chega a R$ 150 milhões. Jafferian Neto afirmou que, para viabilizar a atuação dos bancos médios no agribusiness, as operações não podem ser pequenas. "Uma operação de R$ 1,5 milhão justifica fazer um gerente viajar 400 quilômetros no campo para fechar o negócio", disse. O gerente tem que se deslocar porque o banco tem poucas agências. Apesar de ter uma rede de apenas quatro agências, segundo levantamento de junho do BC, o Sofisa tem uma base de depósitos à vista que Jafferian Neto considera razoável, de R$ 56,7 milhões. Por isso opera no crédito rural. As agências são em Curitiba, Rio, São Paulo e Belo Horizonte e permitem ao banco atingir Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. "Rede não é tão fundamental. Se as operações forem grandes o suficiente, o gerente se desloca", explicou. Um dos mais novos players na área é o ABC Brasil, que acaba de criar a carteira de crédito agrícola, atraído pelas operações de repasse de Moderfrota, disse o diretor Alfredo Neves Moraes. O ABC Brasil, com rede de quatro agências e R$ 24,2 milhões em depósitos à vista, constatou demanda potencial de R$ 50 milhões por recursos do Moderfrota entre seus clientes, das áreas de açúcar e cooperativas. A rede de agências reduzida será compensada pela criação de um "corpo de officers e por agrônomos terceirizados", que visitarão os clientes. A rede está sendo montada no interior de São Paulo, sul de Minas e Paraná. O consultor Vitor Abreu Madeira, da ExeConsult Consultores Executivos, afirmou que novos instrumentos financeiros contribuíram para estimular a atuação dos bancos na área, como o crédito rural garantido por seguro ou pela própria produção. O seguro de performance assegura o pagamento de empresas cujo risco é considerado elevado. O warrant, por exemplo, certificado de depósito de mercadoria em armazém, foi criado no início do século passado, mas só agora pode ser negociado. "São produtos de retorno garantido, que permitem spreads melhores e a montagem de operações estruturadas", disse Madeira. O surgimento de armazéns mais profissionais, com aval da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) também estimulou o uso do warrant. "O armazém agora é como um banco", disse Moraes. Há também a cédula do produtor rural (CPR), que ganhou mais liquidez ao poder ser endossada por algum banco ou trading.