Título: PT vs PT: a economia em xeque
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2004, Poítica, p. A7

Oficialmente, o PT não entregou a fatura das derrotas sofridas nas eleições municipais ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A resolução final expedida pelo diretório nacional do partido no fim de semana isentou o governo da responsabilidade pelos fracassos em São Paulo e Porto Alegre. Na prática, porém, não foi isso que aconteceu. No encontro, ficou acertado que, no início do próximo ano, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, será "sabatinado" pelos integrantes do diretório nacional. O propósito é debater a política econômica. Na noite de ontem, os ministros do PT se reuniram com o presidente Lula para registrar queixas. No discurso que fez durante o encontro do PT, a prefeita Marta Suplicy disse que a influência do governo Lula sobre a sua campanha foi negativa. "A avaliação do governo Lula passou a influenciar o contexto da disputa municipal, numa situação marcada pela deterioração do poder aquisitivo dos setores populares, incluídos os setores médios (...)", declarou Marta. Trata-se, obviamente, de uma crítica explícita à política econômica. É curioso que a prefeita atribua a perda de apoio da classe média à sua candidatura a uma possível deterioração dos salários, num ano em que emprego e renda estão se recuperando de forma consistente. As críticas surpreenderam porque a prefeita, além de afilhada política de Lula, sempre defendeu as políticas do ministro Antonio Palocci. Outros sinais de insatisfação com os rumos da economia estão presentes no texto da resolução aprovada no domingo. Aparentemente, o que aparece na lista de reivindicações é indolor. Não é. O que o PT está pedindo, na sua velha tradição reivindicatória, é a redução de todas as taxas de juros, o corte de impostos, a correção da tabela do Imposto de Renda e o aumento do salário mínimo. Se fosse atender à demanda do PT, o governo inviabilizaria o rigoroso ajuste que vem promovendo na economia desde janeiro de 2003. Com exceção dos juros, cada uma das medidas sugeridas tem impacto fiscal. O reajuste da tabela do IR, por exemplo, é tratado pelo PT como uma questão política. Faz parte do plano para reconquistar a classe média, que parece ter perdido a fé no partido. Os petistas só desconhecem que, num país de tantas iniqüidades como o Brasil, corrigir a tabela do IR, sem eliminar distorções intrínsecas à própria tabela, é socialmente injusto. Torna os ricos mais ricos, concentrando ainda mais a renda. Evidentemente, classe média para o PT são os metalúrgicos da região do ABC. Lá, a média salarial gira em torno de R$ 2 mil a R$ 4 mil. Essa turma, por mais incrível que isso possa parecer, está na elite do Imposto de Renda. Paga imposto pela alíquota mais alta (27,5%). Para beneficiá-la de algum modo, num possível ajuste da tabela, os técnicos da Receita Federal calcularam que o governo teria que abrir mão de uma arrecadação anual entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões. Nas discussões internas, um tecnocrata sugeriu que, para compensar essa perda, o governo aumentasse o PIS e a Cofins, tributos que incidem sobre o faturamento das empresas. Como se sabe, esses impostos não são pagos pelas empresas, mas pelos consumidores de seus produtos e serviços. Portanto, para melhorar o humor da classe média do ABC com o PT, o governo teria que repassar a conta a toda a população. Desde o ano passado, a Receita tem pronta uma proposta para, senão eliminar, pelo menos diminuir as distorções que asseguram aos mais ricos deduzir do IR, nos gastos com saúde, mais do que os menos afortunados. Não se conhece ninguém no PT que esteja interessado em levar essa proposta adiante.

Petistas não reconhecem ganhos econômicos

O PT, como se sabe, não convive pacificamente com o modelo econômico seguido por seu governo. As preocupações, no entanto, parecem ser meramente político-eleitorais. Só isso pode explicar o desconhecimento de que, do ponto de vista econômico, o governo Lula vive o seu melhor momento. Em entrevista recente à revista "Dinheiro", o economista Chico Lopes, que no passado se notabilizou justamente por fazer previsões certeiras do cenário econômico, previu crescimento do PIB superior a 5% em 2005 e 2006. Segundo ele, o país já entrou no ciclo econômico mais próspero de sua História. O maior problema do Banco Central não tem sido crescimento de menos, mas crescimento demais. A fase positiva só será abortada se os juros básicos superarem a casa dos 20% ao ano, algo que nem o mais pessimistas dos analistas está prevendo. Os dados de renda e emprego na indústria, onde está, inclusive, uma boa parcela da base social do PT, não poderiam estar mais positivos. A renda expande, o nível de emprego avança, mas o PT prefere ocupar o noticiário com críticas à política econômica. Os dados positivos poderiam, inclusive, esvaziar o discurso da oposição, mas, com os ataques do PT, ocorre o oposto: as listas de reivindicações tiradas das reuniões do diretório nacional facilitam a vida dos opositores de toda ordem. Críticos impiedosos da política econômica, os petistas ignoram o desempenho pífio do governo Lula em quase todas as outras áreas - educação, saúde, área social etc. Áreas, a maioria delas comandada por petistas puro-sangue, das quais se esperava uma "revolução" orquestrada pelo PT. O sonho americano de Samuel Pinheiro O secretário-geral do Itamaraty sonha com um Brasil que, no futuro, terá que lançar mão do seu "poderio" militar para tratar de seus interesses no exterior. Exatamente como agem os americanos, tão criticados pelo embaixador. "(...) Agora que começa a ter populações e interesses econômicos significativos no exterior, e considerando o número de vizinhos e seu litoral extenso, a natureza dos interesses brasileiros tenderá a se expandir para além do território e a função das Forças Armadas se transformará, hipótese que exige prever e planejar desde já pois a capacidade de ação militar, que inclui necessariamente esquemas seguros de abastecimento, depende de um longo prazo de maturação e não pode ser improvisada", defende Samuel Pinheiro no texto "O Donos do Poder".