Título: Uruguai promete reavaliar acordo com Estados Unidos
Autor: Daniel Rittner, Ivana Moreira e Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 20/12/2004, Brasil, p. A5

O novo governo uruguaio vai reavaliar o acordo de investimentos fechado em outubro com os Estados Unidos, que causou suspeição e mal-estar na diplomacia brasileira, e pretende fortalecer os laços políticos do país com o Mercosul. Nos fóruns internacionais, apoiará a entrada do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente e buscará um acordo com o Itamaraty para apresentar uma candidatura única do bloco à direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Vamos analisar o acordo [com os EUA], que ainda não passou pelo Congresso", afirmou ao Valor o vice-presidente eleito do Uruguai, Rodolfo Novoa, após participar na sexta-feira da reunião de cúpula do Mercosul, em Ouro Preto. Assinado pelo atual presidente, Jorge Batlle, a dias da eleição que deu vitória à oposição, o acordo protege investimentos americanos ao tratá-los como nacionais e foi visto como mais um sinal de fratura entre os sócios do Mercosul. Tida como favorita na campanha presidencial, a Frente Ampla de Novoa e do presidente eleito Tabaré Vásquez não foi consultada. Entre os compromissos do tratado estão pontos controversos, rejeitados pelo Itamaraty nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), como medidas que impedem restrições à remessa de dividendos, impossibilitam a exigência de conteúdo local para a concessão de incentivos e prevêem o uso de um tribunal internacional para solucionar conflitos entre o investidor e o Estado. Em relação ao Mercosul, o novo governo sugere uma atitude mais realista no desenvolvimento das suas instituições, como o Parlamento Comum, e prevê que a integração comercial evoluirá nos limites do "possível", disse Novoa, que há menos de dois meses conquistou com Tabaré Vásquez a primeira vitória da esquerda na história do país. Para ele, a melhor forma de negociar acordos comerciais é "consolidando o bloco" e tendo uma "voz única" com os parceiros externos, inclusive nas discussões da Alca. Internamente, porém, é preciso encarar a realidade atual do Mercosul, sublinha Novoa, e "a realidade está nos mostrando que o Mercosul não compra os nossos produtos". Hoje os mercados brasileiro, argentino e paraguaio respondem por apenas 25% do comércio uruguaio, assinala. "O nosso principal comprador de carne é o Nafta, o nosso principal comprador de lácteos é o México, e os nossos principais compradores de lã são Itália e China." Nesse ponto o vice-presidente eleito expõe uma visão semelhante à de Batlle. Em seu discurso de despedida nas reuniões do Mercosul, ele adotou um tom amigável e elogiou os esforços do governo brasileiro para aprofundar o bloco. No entanto, repetindo sua tradicional postura de ambigüidade em relação aos países vizinhos, enfatizou que a região precisa buscar novos mercados. "Ninguém aqui merece os parabéns", afirmou Batlle, na comemoração dos dez anos da transformação do Mercosul em união aduaneira, em sua provável última alfinetada oficial. Ele sempre defendeu mais agilidade na conclusão de grandes acordos comerciais, como o que se negocia com a União Européia. O novo governo, que assumirá em março, buscará uma aproximação política, cultural e social com o Mercosul. Novoa garantiu que apóia a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU e acha importante que a América Latina tenha um só candidato à direção da OMC. A princípio, mantém o nome do embaixador uruguaio Carlos Pérez del Castillo na disputa, mas abre espaço para um acordo com o Brasil, que lançou Luiz Felipe de Seixas Corrêa. Para Novoa, se não houver consenso na região em relação a um único nome, o candidato europeu Pascal Lamy se fortalecerá. No campo comercial, lembrou as dificuldades e mencionou que um dos principais produtos da pauta de exportação do Uruguai, o leite em pó, não entra no mercado brasileiro por causa de uma medida antidumping. Novoa tem os pés no chão com relação à proposta brasileira de criar um Parlamento do Mercosul até o fim de 2006. Concorda com a idéia, notando que os únicos representantes eleitos nas cúpulas do Mercosul são os próprios chefes de Estado e é preciso dar mais legimitidade ao bloco. Mas, uma vez mais, pede realismo. "Isso tem que passar um pouco da fronteira da boa vontade", disse. Para o vice-presidente eleito, antes de anunciar a criação do Parlamento é preciso definir as suas atribuições, número de membros, onde funcionará, como os países serão representados. Novoa, que se reuniu duas vezes com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas semanas (em Cuzco e em Ouro Preto), define como "interessante" a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações, mas observa que tem havido uma "inflação de cúpulas presidenciais" e os governos deveriam fazer "esforços de racionalização" desses encontros.