Título: Subsídios começaram com Napoleão
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 11/11/2004, Especial, p. A16
A persistência da enorme produção de açúcar de beterraba subvencionado tem um culpado: Napoleão Bonaparte. No começo do século XIX, a Inglaterra tinha o controle marítimo e do comércio mundial, impedindo as mercadorias francesas de entrar ou sair dos portos. Em conseqüência, a cana-de-açúcar das Antilhas começou a fazer falta na França, por exemplo. A resposta de Napoleão, em Berlim, em 1806, veio com o "bloco continental", um decreto proibindo toda mercadoria inglesa de entrar no continente, para tentar arruinar a Inglaterra e impulsionar a França como primeira potência econômica européia. Em 1811, cientistas franceses impressionaram Napoleão com dois pães de açúcar de beterraba. O imperador decretou, então, que 32 mil hectares de terra deveriam ser destinados à produção de beterraba. O regime de subvenção começou aí e nunca mais parou. Em poucos anos, havia várias usinas no norte da França, Alemanha, Áustria, Rússia e Dinamarca. Com o fim do "bloco continental", a cana voltou a ter a preferência na Europa - menos na França. A produção da beterraba continuou sendo subsidiada pelo governo francês, inclusive para novas variedades e melhores técnicas de extração. Na região de Arcis-sur-Aube, porém, a produção só prosperou com o generoso regime do açúcar da União Européia, depois de 1968. A região sempre foi concentrada na produção de Champagne, em 30 mil hectares estritamente controlados, que produzem anualmente 300 milhões de garrafas para o mundo todo. Um hectare para essa produção chega a custar 800 mil euros, totalmente sem relação com a realidade. Mas é raríssimo alguém vender seu pedaço de terra onde produz Champagne. Em compensação, o hectare para a produção de beterraba está valendo hoje 9.500 euros. E pelo que a reforma do açúcar prenuncia, haverá muito negócio de terra pela frente. Mas nesse caso, para os agricultores franceses, a culpa será do Brasil. (AM)