Título: Cooperação nuclear entrou na pauta
Autor: Sergio Leo, Taciana Collet e Vinícius Dória
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2004, Especial, p. A12
A visita do presidente russo, Vladimir Putin, serviu para dar um discreto empurrão em um tema citado com insistência por ele, e de grande interesse da Rússia no Brasil: a colaboração em programas de uso pacífico da energia nuclear. O assunto foi mencionado nas entrevistas de Putin nos dias que antecederam sua chegada ao Brasil e, nos documentos oficiais assinados ontem, aparece de maneira quase clandestina, na declaração assinada pelos presidentes, em um trecho no qual Putin e Luiz Inácio Lula da Silva enfatizam "o potencial de incremento da cooperação bilateral nas áreas de tecnologias limpas e pesquisa ambiental". Os dois governos consideram a energia nuclear uma "tecnologia limpa", por não poluir a atmosfera nem influir no aquecimento global; uma missão brasileira vai à Rússia, no início de 2005, para detalhar possíveis programas de cooperação na área. O tema já foi discutido em outubro pelo vice-presidente José Alencar, em uma visita a Moscou, e o governo brasileiro identificou duas áreas nas quais o Brasil poderia comprar ou financiar programas de tecnologia e produtos russos. Um deles é o de produção de radioisótopos para uso em medicina e na indústria; o outro é a produção de combustíveis para reatores nucleares e de pesquisa. O Brasil tem 36 centros que usam a tecnologia nuclear para fins de produção de energia ou aplicações médicas e industriais. Os dois presidentes não chegaram a assinar um acordo sobre o assunto porque as conversas sobre cooperação nuclear se dão ao abrigo de um acordo da metade dos anos 90, e nunca aproveitado para mais que visitas de especialistas de um país ao outro. Durante a passagem de Putin por Brasília, a cooperação em matéria de energia e tecnologia foi incrementada pela assinatura de dois acordos, um para cooperação energética e outro em ciência e tecnologia. Este último prevê troca de especialistas e informações em biotecnologia (produtividade animal com uso de pesquisas genéticas e controle da Doença de Chagas) e saúde (pesquisas sobre câncer). Troca de experiências em astronomia (pesquisas sobre satélites e problemas da astrofísica) e informação técnico-científica. Os dois países colaborarão, também, nas pesquisas sobre energia (monitoramento de linhas de transmissão, proteção de tubos contra corrosão, geração de energia a partir de reciclagem de detritos) e no ensino e pesquisa sobre física da terra (métodos geofísicos de prospecção de petróleo e gás, e estudos sobre a crosta terrestre, na Sibéria e na Amazônia). (SL)