Título: 2005 terá menos visitas diplomáticas
Autor: Sergio Leo, Taciana Collet e Vinícius Dória
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2004, Especial, p. A12

As visitas do presidente da Rússia, ontem, do premier canadense, hoje, do rei do Marrocos, sexta-feira, e do presidente do Paquistão, semana que vem, encerram este ciclo de dez dias de intensa movimentação diplomática do governo brasileiro este mês, quando já foram recebidos aqui também os presidentes da China, Vietnã e Coréia do Sul, e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha. Em 2005, a política externa dará mais espaço à política interna. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer ficar mais tempo no Brasil que viajando ao exterior, e, portanto, receberá também menos visitas. Não que neste ano se tenha registrado a proporção inversa, mas é fato que o presidente viajou demais, participou de reuniões demais e recebeu visitas demais. Ficar no Brasil significa dar prioridade, concentração e foco à administração. O ano que vem terá que ser um super ano de realizações do governo para que seja possível nutrir um outro plano, o da reeleição. Mesmo ficando em segundo lugar, a política externa já adquiriu tal dinâmica, segundo avalia a assessoria do presidente, que vai exigir ainda muita atenção. Lula pretende retribuir duas ou três visitas dessas que recebeu agora, fazendo a reciprocidade, como já está definido, com a Rússia e o Japão. Viajará à África para continuar a política de aproximação efetiva com o continente, conhecendo, desta vez, provavelmente Nigéria e Senegal. Pretende empenhar-se muito na grande reunião dos países Árabes com os países da América do Sul, que vai se realizar no Brasil. O maior dos projetos da política externa no ano que vem, entretanto, é o Haiti. O governo brasileiro quer transformar esta intervenção que a força de paz sob sua liderança executa naquele país em uma espécie de modelo para o mundo, em contraponto ao que considera o avesso disto, que é a intervenção americana no Iraque. "Estamos mostrando, e vamos mostrar mais neste projeto do Haiti, como se faz estabilidade política de um país por intermédio da inclusão social", definiu, ontem, uma autoridade do governo brasileiro, ao explicar o significado do que se está chamando de modelo do Haiti no contexto da política externa. Que não vai mudar, embora não deva manter a mesma intensidade. Esta política, em suas grandes linhas, será a que esteve em execução ao longo deste ano: parceria efetiva com a América do Sul, liderança dos emergentes, estreitamento das relações comerciais com os grandes mercados, como os da China, Índia e Rússia. Embora algumas tenham sido produto da oportunidade, porque os chefes de Estado e de Governo estavam no Forum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), no Chile, as atuais visitas têm, em comum, segundo avaliação do Planalto, o fato de serem países com quem o Brasil tem uma relação comercial significativa, a ser intensificada no plano bilateral, e uma negociação política multilateral que interessa ao país levar adiante (Conselho de Segurança da ONU). Lula, também, tomou gosto pela diplomacia presidencial, não vai dispensá-la e tem sido absolutamente sedutor com convidados. Ontem, no almoço ao presidente Putin, a quem o Itamaraty serviu sugestivamente um insinuante filé mignon com bursin e pimenta verde, Lula brindou a um abstêmio presidente com um cálice de cachaça, presenteou com o filme Pelé Eterno e nem tomou conhecimento da agonia dos convidados com seu atraso de 1h50min. Desta vez, ele deixou esperando, de pé, os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional, além do vice-presidente da República. "Nunca imaginamos que faríamos tanto sacrifício pela Rússia", disse José Sarney a Nelson Jobim, apesar de não ser a primeira vez que ficou horas esperando pelo impontual presidente. (RB)