Título: Putin faz oferta vaga para carne bovina
Autor: Sergio Leo, Taciana Collet e Vinícius Dória
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2004, Especial, p. A12

Pródigo em declarações de boa vontade no campo político, e disposto a uma "aliança tecnológica" com o Brasil, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, deixou frustradas autoridades brasileiras , ontem, ao deixar Brasília sem comprometer-se com a suspensão do embargo sanitário às exportações de carne brasileira; e criou expectativas ao acenar com possíveis "limites mínimos" para importação da carne no futuro. A delegação russa informou o governo que poderá fixar um limite mínimo de importações de 520 mil toneladas, 100 mil das quais para carne bovina. A oferta foi considerada vaga pelo Ministério da Agricultura, que esperava, ao menos, o anúncio da suspensão das barreiras sanitárias às exportações, como havia insinuado o próprio Putin, em entrevistas antes da vinda ao Brasil. "Estou chateado; esperava que o problema fosse totalmente resolvido hoje (ontem)", disse, ao Valor, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que garante já ter fornecido todas as "explicações técnicas" aos russos. Uma missão está em visita ao país e volta no fim de semana à Rússia, e Amorim disse esperar uma resposta até a semana que vem. Na conversa com Putin, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a mostrar ao russo um mapa do Brasil, e indicar a distância dos pólos exportadores de carne no país e a região no Amazonas (Carreiro da Várzea) onde houve o foco da febre aftosa que motivou as barreiras russas. "Eu disse a ele que isso aqui é mais longe do que Ucrânia de Portugal e que, então, não pode considerar como se fosse a mesma região", disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. "O presidente russo disse que os técnicos continuariam a examinar a questão com uma ótica amistosa; vamos esperar o resultado", afirmou Amorim. Na declaração conjunta dos presidentes eles se comprometem a buscar "soluções mutuamente aceitáveis" para as vendas de carne brasileira, a exportação de trigo russo ao Brasil e a compra, pela Rússia, de soja e farelo de soja brasileiros. Paralelamente à negociação sobre o embargo à carne (que só foi suspenso, dias antes da visita de Putin, para Santa Catarina), os governos discutem as ofertas de cotas russas para importação de carne, em contrapartida ao apoio para ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio. Lula, na declaração conjunta dos presidentes, reafirmou o apoio ao acesso da Rússia à OMC e Putin declarou seu apoio à pretensão brasileira de um assento permanente ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Roberto Rodrigues mostrou-se cético em relação às informações russas sobre as cotas. "Foi um ligeiro aceno, nada de concreto". Nas negociações para acesso à OMC, a Rússia prometeu cotas de importação de carne, mas destinou 75% delas aos Estados Unidos e à União Européia, o que deixou o Brasil na condição de disputar o restante com outros países. O Brasil só tem conseguido aumentar sua fatia no mercado russo porque europeus e americanos enfrentam barreiras sanitárias devido a focos da doença da "vaca louca". "Já exportamos hoje mais que 100 mil toneladas, mas o aceno já é alguma coisa", comentou, sem entusiasmo, o presidente da associação dos exportadores de carne bovina (Abiec), Marcus Vinicius Pratini de Morais, informado pelos ministros da proposta russa. Apesar da frustração com as barreiras à carne, Putin fez um discurso otimista em relação ao comércio entre os dois países, que hoje está em torno de US$ 2 bilhões mas, segundo o presidente russo, poderá "duplicar e até mesmo triplicar em um futuro próximo". Após assinar, com Lula, acordos de cooperação na área de telecomunicações, de energia e na área aeroespacial (que prevê até a possível criação de um novo foguete lançador de satélites), Putin defendeu a criação de uma "aliança tecnológica" entre Brasil e Rússia e elogiou o Brasil como "um dos líderes do mundo contemporâneo". O acordo de telecomunicações prevê negociação de posições conjuntas no fóruns internacionais do setor e negociação conjunta sobre ocupação de radiofreqüências; o acordo de energia prevê colaboração em áreas como gás e petróleo e produção e uso de etanol; e a colaboração na área aeroespacial inclui lançamentos de satélites e colaboração na infra-estrutura da base espacial de Alcântara. Bem humorado, Putin, ao cumprimentar o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, antes do encontro com Lula, comentou estar conhecendo o ministro "mais importante" do governo. No almoço, Lula serviu cachaça ao presidente russo, para promover o produto que fez sucesso na última missão comercial brasileira a Moscou, em outubro. Entre os acordos assinados pelos dois presidentes está uma convenção para evitar a dupla tributação, que inclui dispositivos inéditos de colaboração em políticas para evitar a evasão fiscal. Putin e Lula assinaram acordos de cooperação em matéria de esportes e educação, que prevê trocas de visitas de especialistas.