Título: Impasse cambial continuará no foco em 2012
Autor: Lauricella, Tom
Fonte: Valor Econômico, 03/01/2012, Fianças, p. C8
As principais moedas do mundo, cada uma delas afligida pelas suas próprias preocupações econômicas e fiscais, lutaram, lutaram e acabaram 2011 num impasse.
Depois de um ano de oscilações, o dólar terminou o ano com uma diferença de cerca de 3% de onde começou, comparado com as moedas da maioria dos grandes mercados mundiais.
Isso inclui o euro, em relação ao qual o dólar fechou o ano com uma alta de 3,3%, à medida que a crise de dívida europeia, que vinha borbulhando lentamente, atingiu o ponto de fervura e investidores viram-se diante de um possível desmantelamento da união econômica que sustenta a moeda comum.
A maior exceção foi o iene, o qual, apesar de todos os problemas do Japão, subiu mais de 5% em relação ao dólar. O Índice do Dólar dos Estados Unidos, que mede o desempenho do dólar contra uma cesta de moedas, subiu 1,5% em 2011. "Com certeza não foi essa a impressão", disse Robert Sinche, estrategista da RBS Global Banking & Markets, a respeito do desempenho praticamente nulo da moeda.
Os investidores começaram 2012 basicamente no mesmo ponto onde se encontravam 365 dias atrás. Acima de tudo, eles estão esperando por um plano confiável dos governos europeus para lidar com a crise da dívida na zona do euro.
O tema comum em 2011 foi investidores fugindo das apostas arriscadas em busca de segurança para o seu dinheiro
Nesse vácuo, os mercados de câmbio, como muitos outros, continuam sujeitos a pregões em que os investidores ora se arriscam e ora fogem do risco. Já as cotações das moedas permanecem em grande parte atreladas às suas classificações como ativos seguros ou "de risco".
Se há alguma diferença entre o início deste ano e o do ano passado, é a probabilidade hoje de uma recessão europeia precipitada por um aperto do crédito entre os bancos do continente.
"A economia global está tão frágil no momento e a crise da dívida soberana na Europa tão sistêmica, que essencialmente todas as moedas giram em torno do desfecho da crise no continente", diz John Norman, estrategista de câmbio do J.P. Morgan.
Alguns analistas acreditam que uma recessão profunda ou uma redução agressiva da taxa de juros pelo Banco Central Europeu pode romper as amarras no mercado de câmbio e mandar o euro para o fundo do poço. Mas muitos enxergam uma possibilidade de o mercado continuar travado até que o destino da Europa - e do euro - fique mais claro.
A paralisia na Europa reverberou pelos mercados emergentes, com investidores hesitando em fazer apostas agressivas naquelas moedas, apesar das suas geralmente animadoras perspectivas econômicas e fiscais. Essa postura levou, em 2011, ao inesperado crescimento do dólar ante as moedas de países emergentes, como o real brasileiro e o won coreano. O dólar subiu 12% contra o real e 5,6% ante o won.
Mas talvez o mais notável tenha sido a viagem de ida e volta do dólar em torno do euro. Durante boa parte do ano, foi uma surpresa que o euro tenha permanecido tão forte, até mesmo quando os mercados de títulos europeus estavam em franco declínio.
No final, dizem os analistas, a moeda foi impulsionada por duas forças principais. Primeiro, os bancos centrais dos mercados emergentes compraram euros, desejosos que estavam de diversificar, uma vez que haviam acumulado dólares tentando desvalorizar suas próprias moedas. O segundo fator foi a compra da moeda pelos bancos europeus que estavam vendendo ativos fora da zona do euro, num esforço de levantar capital e melhorar seus balanços. Os bancos usaram os recursos obtidos nessas vendas para comprar euros.
A dupla de moedas oscilou drasticamente no meio do caminho. O euro decolou com força no início do ano, atingindo o seu pico no começo de maio, a US$ 1,48. Mas em outubro já havia caído para US$ 1,32, somente para saltar de novo a US$ 1,42, infligindo perdas em fundos de investimentos que apostaram que a crise europeia ia fazer o euro cair.
Mas então os efeitos negativos da crise da dívida começaram a pesar. Tensões no mercado de títulos de dívida europeia levaram bancos e investidores a ponderar as certamente catastróficas consequências de um país deixar a zona do euro, incluindo o total colapso do bloco.
Como resultado, a moeda comum encerrou o ano na defensiva. Em dezembro, o euro completou a sua viagem de ida e volta, atingindo seu ponto mais baixo nos últimos dias de 2011. A cotação final foi de US$ 1,29.
O iene japonês teve a sua própria montanha-russa depois que o país foi atingido por um terremoto, um tsunami e um desastre nuclear. Nas semanas depois do desastre de 11 de março, o iene enfraqueceu, com o dólar subindo de 81,25 ienes no início do ano para 85,50 ienes em abril. Mas o iene logo reverteu o seu curso e em outubro o dólar atingiu o seu mínimo, perto de 75,80 ienes. O dólar fechou a ano cotado a 76,92 ienes.
Assim como a do euro, a flutuação do iene parece incoerente em vista das dificuldades do país. Mas a moeda japonesa desfruta de um contínuo fluxo de compra da parte de empresas japonesas repatriando investimentos e receitas. Com isso, as tentativas do governo japonês de conter a alta do iene através de fortes intervenções no mercado surtiram efeito apenas no curto prazo.
Numa visão mais ampla, entretanto, o dólar ganhou fôlego nos últimos meses do ano, principalmente comparado com moedas de países emergentes e produtores de commodities.
O tema comum foi investidores fugindo das apostas arriscadas em busca de segurança para o seu dinheiro. Isso significou trazer dinheiro de volta para a casa ou procurar outros refúgios, como o franco suíço ou moedas de outros países de forte política fiscal, como a Noruega.
Para muitos investidores, apesar de os EUA terem perdido a classificação de baixíssimo risco "AAA" da agência de classificação de risco Standard & Poor"s, do impasse político em Washington e dos juros essencialmente zerados, o dólar manteve o seu status de refúgio.
Essa dinâmica determinará como o mercado de câmbio se comportará em 2012, disse Normand, do J.P. Morgan. "Em geral, uma moeda que tem rendimento zero como o dólar só tem valor numa crise", disse ele. Se a economia global se mover um pouquinho além da crise, isso implicará em um desejo menor de se ter dólar".
Normand espera que, ao longo de 2012, o sentimento se mova para "algo um pouco mais estável" e, em tal ambiente, o dólar deverá ceder.
Sinche, da RBS, diz ter havido uma outra dinâmica ao longo do ano passado, que levou à igualdade entre as principais moedas. E que essa dinâmica tem boas chances de estar novamente presente em 2012.
"Grande parte [da igualdade] foi relacionada à convergência das taxas de juros ao redor do mundo e à convergência das políticas monetárias", disse Sinche.
Quando a diferença entre as taxas de juros dos países é grande, isso tende a levar os investidores a comprar moedas de alto retorno e a vender aquelas de baixo retorno. Mas, nos últimos anos, as diferenças nos juros ou simplesmente encurtaram ou, quando já eram pequenas, diminuíram ainda mais.
Por exemplo, no segundo semestre de 2011 o BCE mudou de marcha, passando de aperto para afrouxamento da política monetária, e o Banco da Inglaterra pareceu inclinar-se para outro afrouxamento quantitativo - compras de títulos de dívida com intenção de baixar os juros. A Suécia surpreendeu muitos economistas com um corte no final de dezembro. Enquanto isso, alguns acreditam que o Federal Reserve, o banco central americano, terá que jogar ainda mais dinheiro no sistema financeiro em 2012.
"Fracamente, não vai mudar muita coisa [...] provavelmente durante boa parte de 2012", disse Sinche, "e isso não é bom para investidores que estão tentando ganhar dinheiro em meio a grandes mudanças."