Título: Núcleo palaciano pode abrigar Jobim
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 06/09/2006, Política, p. A7
Muito embora tenha pedido ao PT para evitar especulações sobre a formação do novo governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comenta com colaboradores mais próximos que pretende manter o núcleo palaciano, em eventual segundo mandato. A exceção poderá ser o Ministério de Relações Institucionais, atualmente ocupado por Tarso Genro, se o governo de coalizão com o PMDB se concretizar e o partido indicar para o cargo o nome do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim.
Neste caso, Tarso seria deslocado para outra função, provavelmente para a Justiça, de vez que o ministro Márcio Thomaz Bastos já manifestou a intenção de sair, ao final do governo, e Tarso o desejo de ocupar a Pasta. Inicialmente, Thomaz Bastos pensava em ficar apenas dois anos no governo, prorrogou esse prazo para três anos e agora deve permanecer até o final do atual mandato de Lula. O ministro quer voltar para São Paulo e advogar em causas selecionadas.
No PMDB é mencionada a hipótese de o presidente transferir do ministro Luiz Fernando Furlan do Desenvolvimento para a Casa Civil. De acordo com interlocutores do presidente, essa é uma hipótese altamente improvável, pois a ministra Dilma Rousseff seria o que Lula sempre desejou para a Casa Civil: com discrição, ela efetivamente gerencia o dia-a-dia do governo. É verdade que o Planalto detectou a vontade de Furlan de permanecer no governo, mas em outro ministério. Isso pode vir a efetivamente ocorrer, mas há dificuldades na definição da Pasta.
Furlan, por exemplo, caberia no Planejamento, ministério atualmente ocupado pelo petista Paulo Bernardo, que desistiu de concorrer a uma reeleição assegurada de deputado federal para atender um pedido de Lula e ficar no governo. Os ministros nessa situação, como Walfrido Mares Guia (Turismo) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), devem permanecer no governo, mas podem mudar de função.
Outra questão que precisa ser resolvida antes de eventual promoção de Furlan para o Planejamento seria a definição do nome do futuro ministro da Fazenda. Não é certa a manutenção de Guido Mantega, nome que o presidente tem como uma espécie de "curinga". Ou seja, pode usá-lo em qualquer outro cargo. No atual mandato de Lula, o ministro já ocupou o Ministério do Planejamento, a presidência do BNDES e agora está na Fazenda.
Embora sem a mesma ênfase dada em relação a Dilma Rousseff, auxiliares de Lula dizem que é sua intenção manter também o ministro Luiz Dulci na Secretaria Geral da Presidência da República. Dulci é o responsável pela interlocução com os movimentos sociais, mas também cumpre missões políticas para o presidente, igualmente com discrição. A conta do ministro está no azul quando se fala em articulação com o MST, que está calmo no período eleitoral, por exemplo.
Assim, entre os ministros com atribuição política do Planalto, só mesmo a coordenação política poderia mudar de dono. Há um problema: o presidente aceita sem restrições o nome de Nelson Jobim, mas a cúpula governista do PMDB espera se entender com o ex-presidente do STF, antes de indicá-lo. Jobim integra o PMDB gaúcho, que esteve na maior parte das vezes na oposição ao governo. A cúpula governista quer se assegurar de que ele será um interlocutor confiável de seus interesses no Palácio do Planalto.
Há divisão no PT quando o assunto é Marta Suplicy. A ala ligada aos ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci assegura que ela não só é figura certa no próximo ministério, mas também uma das hipóteses consideradas por Lula para sua sucessão em 2010. Nas alas mais próximas a ex-prefeita, no entanto, afirma-se que o plano de vôo de Marta é outro: ficar fora do governo e tentar recuperar a Prefeitura de São Paulo daqui a dois anos, na eleição de 2008. O nome paulista para o ministério, em cogitação por Lula, seria o do senador e líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, caso ele saia derrotado na eleição para o governo de São Paulo.