Título: Brasil deve seguir modelo de crescimento de Argentina e China, afirma economista
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 01/09/2006, Brasil, p. A6
O Brasil tem uma política monetária "excessivamente ortodoxa", que trava o crescimento econômico, mas deveria seguir o exemplo da China e Argentina. A avaliação é do economista Heiner Flassbeck, um dos autores do relatório da Unctad e vice-ministro de Finanças durante parte do governo social-democrata do ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder.
"Se observássemos o pensamento tradicional sobre desenvolvimento e teoria econômica, e depois uma análise da China nos últimos 20 anos, veríamos que 95% dos bons economistas teriam chegado à conclusão de que a China é impossível", argumenta Flassbeck. "Esse crescimento é - e foi - possível porque os chineses utilizaram mais instrumentos e a escolha de políticas foi diferente da tradicional."
O relatório destaca que a estabilização de preços tem sido um dos objetivos principais na maioria das recuperações econômicas bem-sucedidas, mas as políticas têm sido diferentes. É o caso dos novos países industrializados da Ásia, onde a estabilização foi obtida por instrumentos não-ortodoxos do ponto de vista monetário, como politica de renda ou intervenção direta no mercado de bens e emprego. As políticas monetária e fiscal utilizavam instrumentos suscetíveis de provocar crescimento rápido e atrair fortes investimentos: baixa taxa de juros e, no caso asiático, taxa cambial levemente desvalorizada, combinadas com incentivos fiscais.
Flassbeck sugere ao governo brasileiro, como uma medida não-monetária, um amplo consenso nacional em torno de salários nominais que não fiquem além da produtividade e, em contrapartida, baixa de juros mais rápida. "A China e Argentina estão crescendo a taxas altas também em razão de medidas não-ortodoxas", afirmou.
O secretário-geral Supachai Panitchpakdi chega a apontar as baterias contra o excesso nas metas de inflação e minimiza a independência do Banco Central, estimando que a autoridade monetária tem que trabalhar com o governo para estimular o crescimento.
Flassbeck lembra que o Federal Reserve, banco central americano, tem como missão principal apoiar a expansão econômica. Ambos insistem que a estabilização de preços é decisiva na dinâmica para o crescimento, mas os países que conseguiram utilizar instrumentos heterodoxos tiveram mais flexibilidade para uma política macroeconômica mais eficaz.
A Unctad nota também que a desregulamentação financeira na América Latina provocou crises bancárias, enquanto o Sudeste Asiático teve crescimento sustentado regulamentando o crédito e fazendo controle de capitais. Supachai insistiu também sobre a política cambial, outro tema presente no debate brasileiro. Considera que tanto o câmbio fixo como a livre flutuação "mostraram que têm repercussões negativas". A recomendação é adotar posições flexíveis intermediárias. (AM)