Título: Segundo semestre será melhor, mas país deve crescer 3% no ano
Autor: Santos, Chico
Fonte: Valor Econômico, 01/09/2006, Brasil, p. A3
Com o resultado decepcionante do PIB do segundo trimestre, a maior parte dos analistas passou a apostar em um crescimento na casa de 3% para 2006. Os números também deixam claro que a previsão do governo - uma expansão de 4% a 4,5% - exigiria um ritmo chinês da economia brasileira na segunda metade do ano. Mesmo a expectativa de uma atividade mais forte até dezembro, impulsionada pelos juros em queda, aumento de renda, crédito amplo e gastos públicos ainda elevados, não é suficiente para segurar as projeções em patamares mais elevados.
Para a produção industrial de julho, aliás, os economistas avaliam que houve crescimento em relação a junho. Indicadores importantes como a produção de veículos, expedição de papelão ondulado e consumo de energia elétrica apontam para um desempenho melhor da indústria no começo do terceiro trimestre.
Os analistas consideram impossível um crescimento neste ano de 4% a 4,5%, como tem sido previsto pelo governo. Cálculos da economista Giovanna Rocca, do Unibanco, mostram que o país teria que avançar a um ritmo chinês na segunda metade de 2006. Para crescer 4% em 2006, a atividade teria que registrar expansão média de 2,15% nos dois próximos trimestres, na comparação com o trimestre anterior, com ajuste sazonal. "Em termos anualizados, isso significa um crescimento de 8,8%". A expansão de 4,5% exige um número ainda maior: 3% por trimestre, ou 12,5% anualizados.
O economista Sérgio Vale, da MB Associados, foi um dos que revisaram para baixo sua previsão de crescimento para este ano, de 3,5% para 3%. Vale tem uma visão menos otimista sobre o segundo semestre que a maior parte dos analistas. Para ele, o crédito deve perder fôlego, afetado pela inadimplência, o impacto da renda deve ser menor, o câmbio valorizado continuará a ser um problema e o impulso fiscal será mais modesto. "Pode ser que o PIB não cresça nem 3% neste ano", afirma ele, que revisou também sua estimativa para 2007, de 3,1% para 2,8%.
Há quem seja ainda mais pessimista. A Rosenberg & Associados já revisou para 2,9% sua projeção de crescimento da atividade em 2006. A LCA Consultores, por outro lado, permanece com um cenário mais favorável. Bráulio Borges, economista da LCA planeja revisar sua estimativa de 3,7% para 3,5%. Ele aposta que o mercado doméstico será capaz de impulsionar a economia no segundo semestre, tanto por um aumento da renda, que só será sentido com mais força agora, como também pelo crédito. "Não acredito que o endividamento do consumidor tenha chegado a um limite. A inadimplência é algo cíclico e vem diminuindo mês a mês desde abril". Para julho, a estimativa é de alta de 0,4% na produção industrial.
A projeção de Borges também conta com melhores desempenhos do setor de exportação de petróleo, após paradas para manutenção em plataformas da Petrobras, e do siderurgia, que também sofreu um baque após um acidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CNS), que atrapalhou a produção nos meses de fevereiro até junho. Ele lembra de outro fator favorável ao crescimento neste semestre: as exportações. Para ele, lentamente as vendas externas estão se recuperando. E, apesar de ainda contribuírem de forma negativa para o PIB, a contribuição tende a ser menos negativa.
A aposta na renda do trabalhador como impulso para o crescimento também existe. Desde o início deste ano espera-se um desempenho forte dos bens de consumo não duráveis, como alimentos, que seriam impulsionados pelo aumento da massa salarial. "Até agora isso não foi claramente verificado", diz Carlos Thadeu Gomes Filho, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, a melhora nesse semestre virá desse setor e de uma recuperação mais forte da construção civil.
Giovanna reduziu a previsão para o PIB neste ano de 3,5% para 3,2%, o que requer um crescimento trimestral médio de 1% na segunda metade do ano. Para ela, é um número possível de ser atingido, num cenário que deve combinar continuidade da queda dos juros, um mercado de trabalho positivo e exportações ainda robustas de produtos primários.