Título: Indústria cai e consumo sobe no PIB trimestral
Autor: Santos, Chico
Fonte: Valor Econômico, 01/09/2006, Brasil, p. A3

O crescimento do consumo doméstico - abastecido por importações (estimuladas pelo câmbio convidativo) e pela venda de estoques acumulados nas prateleiras das empresas industriais - sustentou o magro crescimento de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre e já considerando fatores sazonais, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. Na mesma comparação, a produção industrial caiu 0,3%.

A taxa de crescimento do PIB

- 0,5% - foi quase um terço do número do primeiro trimestre, revisado de 1,4% para 1,3%, e foi o pior desempenho desde o terceiro trimestre do ano passado (queda de 1,2%) na mesma forma de comparação.

Em relação ao segundo trimestre do ano passado, o crescimento do PIB também foi pequeno, de apenas 1,2% - quase um terço dos 3,3% registrados no primeiro trimestre na mesma base de comparação. A taxa do semestre ficou em 2,2%, o que configura o pior primeiro semestre desde 2003 (0,7%), e o crescimento acumulado em quatro trimestres foi de apenas 1,7%, o mais baixo desde o primeiro trimestre de 2004.

Os números setoriais do IBGE revelam que, além do crescimento ter sido baixo, houve uma perda de qualidade em relação ao passado recente. No segundo trimestre em relação ao primeiro (sempre na série com ajuste sazonal), a agropecuária surpreendeu e comandou o desempenho, mesmo com uma performance acanhada (0,8%). O setor de serviços ficou praticamente na média do PIB (0,6%) e a indústria caiu (0,3%).

Pela ótica do consumo, a surpresa negativa veio no investimento. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - que mede os gastos em máquinas e equipamentos e na construção civil - teve queda de 2,2% no segundo trimestre em relação ao primeiro e alta de apenas 2,9% em relação ao segundo trimestre de 2005. O resultado aponta uma forte desaceleração nos investimentos, que haviam crescido 3,7% no primeiro trimestre em relação ao final de 2004.

Segundo Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE, o consumo das famílias no segundo trimestre - cujo crescimento foi exatamente o dobro da taxa de 0,6% do primeiro trimestre -, "tomou em parte o lugar dos investimentos". Ao mesmo tempo, o setor externo também parou de contribuir para o avanço do PIB, com as exportações caindo 5,1%, enquanto as importações permaneceram estáveis (pequena queda de 0,1%).

Como explicar o crescimento do consumo se a indústria produziu pouco e as importações não cresceram? Rebeca responde que as famílias brasileiras compraram produção que estava estocada (embora o IBGE não faça no meio do ano uma medição formal da variação dos estoques), e consumiram mais bens importados, cujo preço foi beneficiado pela valorização do real.

Segundo ela, o papel das importações fica mais evidente na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, onde elas crescem 12,1%, enquanto as exportações caíram 0,6%, o pior desempenho nesta forma de comparação desde o terceiro trimestre de 2003.

Estêvão Kopschitz, do Grupo de Acompanhamento Conjuntural (GAC) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), corrobora essa análise. Segundo ele, os estoques caíram o dobro da variação do primeiro trimestre deste ano. "Para mim, o resultado do segundo trimestre é um movimento de oscilação em torno de uma média que observamos no Brasil há muitos anos, de cerca de 2,5%."

O Ipea vai rever para baixo sua previsão de crescimento econômico de 3,8% para 2006, a partir dos dados do segundo trimestre do ano, disse Kopschitz. Segundo cálculos de especialistas, para chegar ao número atual do Ipea, a economia brasileira teria que crescer 5,4% no segundo semestre, fato considerado improvável, embora seja consenso que o crescimento de julho a setembro será maior do que os 2,2% do primeiro semestre, até porque a base de comparação (o segundo semestre de 2005), é muito baixa, pois na ocasião a economia cresceu apenas 1,2%.

Apesar de o analista do Ipea entender que o baixo crescimento crônico da economia brasileira está além dos aspectos conjunturais, o economista Carlos Thadeu de Freitas, chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), entende que houve, sim, influência decisiva da taxa de juros no desempenho recente da economia. "O Banco Central perdeu o momento. O primeiro semestre era favorável, mas os juros altos não estimularam (o crescimento)", afirmou.

Para Freitas, o desempenho do segundo trimestre foi "um resultado frustrante para um país que pretendia chegar ao final do ano com um crescimento de 4%". Ele disse que este ano "já está dado" em termos de perspectivas de crescimento e que vai restar ao governo "colher os louros de uma inflação em torno de 3,2%".