Título: Empresas cancelam férias coletivas para atender encomendas
Autor: Raquel Salgado, Patrick Cruz, Vanessa Jurgenfeld
Fonte: Valor Econômico, 10/12/2004, Brasil, p. A4
A conjugação de mercado interno aquecido e maior participação da exportação no faturamento das empresas está levando um número expressivo de fábricas a suspender, pela primeira vez em muitos anos, a concessão de férias coletivas em dezembro. Quem não suspendeu, reduziu os dias de licença ou o total de funcionários em descanso nesse período. Em diferentes setores da indústria não há sinais de que a pequena retração na produção identificada pelo IBGE em outubro tenha se repetido no final do ano. "Férias coletivas são ultrapassadas para quem atende o mercado externo. Não dá para recusar pedido porque a fábrica está parada. Se você recusa pedido no exterior, você é substituído", afirma Bruno Ferrari, diretor-superintendente da metalúrgica Zen, maior fabricante de propulsores de partida de motor do país. A empresa vai parar de forma parcial no fim de ano. O executivo explica que cerca de 30% da produção será mantida. Em 21 anos, é a primeira vez que a Democrata, empresa de calçados com fábricas em São Paulo e no Ceará, não dará férias coletivas aos funcionários. Nos anos anteriores, havia uma pausa entre o Natal e o início do novo ano. No entanto, o forte impulso dado pelas exportações e a recuperação do mercado interno no segundo semestre impediram a paralisação da fábrica. Andréa Rinaldi, gerente de marketing da Democrata, ressalta que a empresa facilitou o pagamento para os pedidos com entrega em janeiro. Como as lojas estão vendendo bem e o nível de estoques é baixo, a reposição será forte no início do ano, explica Andréa. Ao mesmo tempo, a conquista de novos mercados no exterior - a empresa exporta para 52 países - e a ampliação das vendas para antigos compradores, inibe a parada da produção. Na fábrica de calçados Sândalo, em Franca, interior do Estado de São Paulo, não haverá férias porque a empresa está com datas apertadas para a entrega de produtos. Segundo Carlos Brigagão, presidente, o fato de a Páscoa ser mais cedo, fez com que os compradores internacionais, especialmente os Estados Unidos, antecipassem encomendas e embarques. "O volume de vendas é crescente e a exportação tem sido essencial para o bom desempenho do ano", diz. Em São José dos Pinhais, no Paraná, os 1,5 mil funcionários do Boticário, também não terão férias coletivas e serão liberados só nos dias 24 e 31. No ano passado a empresa parou 14 dias na virada do ano. A direção da empresa explica a decisão por dois fatores: aquecimento da economia e acertos para contagem de horas de trabalho. De acordo com o diretor comercial da empresa de cerâmica de revestimentos Eliane, Antônio Carlos Loução, a empresa continua optando por não dar férias coletivas, mesmo tendo vivido um momento difícil no mercado nacional. A principal razão é o abastecimento do mercado externo. "Férias coletivas só com muita depressão de mercado. Hoje compensamos o mercado interno com vendas externas", diz Loução. As vendas da Eliane no mercado nacional, que haviam melhorado entre setembro e outubro, voltaram em novembro e dezembro ao patamar dos primeiros meses do ano. "Esperávamos manter o crescimento entre 5% e 8% registrado no terceiro trimestre, mas isso não vai acontecer. A alta dos juros teve peso forte, especialmente em um setor que compra a prazo como o nosso", comenta. No entanto, no mercado externo a empresa está entrando em novos mercados e tem vendas mais fortes. A empresa vai enviar ao exterior volume recorde -- US$ 68 milhões ante US$ 56 milhões em 2003. Por conta do aumento da produção, as férias coletivas de dezembro foram suspensas na fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, e também em todas as 25 empresas sistemistas, que fazem parte do complexo ligado à montadora. Deverão entrar em férias apenas os funcionários ligados às atividades administrativas, segundo acordo firmado com o sindicato. Em agosto, quando a Ford baiana passou a operar também em terceiro turno, foram contratados 1,7 mil pessoas, 700 delas pela própria companhia e mil pelas sistemistas. Com o acréscimo, a produção do próximo ano deverá atingir capacidade total, de 250 mil unidades. A produção de 2004 deverá atingir 190 mil veículos. A Ford exporta 35% do que produz em Camaçari para os países do Mercosul e da Comunidade Andina, além de abastecer também o mercado mexicano. Na indústria de plástico da bahia, o aumento da demanda - e o conseqüente avanço da produção - levou as companhias a estipularem turnos aos sábados e domingos, o que não ocorria antes, segundo o Sindicato dos Trabalhadores do Ramos Químico e Petroleiro da Bahia (Sindiquim). "O setor não tem tradição de oferecer férias coletivas e não se trabalhava aos sábados e domingos. Agora o segmento plástico também está estendendo a jornada para 24 horas", diz Carlos Itaparica, diretor do sindicato.