Título: Livro é caro e varejo não é treinado para vender
Autor: Bispo, Tainá
Fonte: Valor Econômico, 18/08/2006, Empresas, p. B4
Eduardo Giannetti da Fonseca, um economista que gosta de ler e escrever livros, disse ontem que preço alto e atendimento deficiente nas livrarias limitam o acesso da população ao mercado editorial. Suas críticas animaram os debates iniciais do 34º Encontro Nacional de Editores e Livreiros, realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em Fortaleza.
Giannetti da Fonseca, em sua palestra, lembrou que a baixa tiragem do mercado editorial - uma média de 4 mil exemplares por título - encarece o produto. "Além disso, vivemos em uma cultura extremamente audiovisual, que reduz o interesse pelo livro."
"O preço do livro no Brasil é proibitivamente caro", afirmou o economista. E, além do produto estar longe do alcance do consumidor, continuou, o serviço prestados pelas livrarias não é bom. "Vou em livrarias e peço uma determinada obra para o vendedor. Faço esse teste regularmente e, muitas vezes, eu tenho que encontrar o livro por ele", contou. "Vocês estão perdendo muito mercado ao não treiná-los", disse, dirigindo-se diretamente a editores e livreiros presentes na platéia.
Para Giannetti da Fonseca, o livro é um produto sofisticado e, em um país como o Brasil, onde a população lê apenas 1,8 livro por ano, o vendedor precisa ter uma "função quase educativa". Citou o livro de bolso (ou "pocket book"), fabricado com material mais simples e de tamanho menor, como uma opção mais barata. "A experiência do 'pocket' mostra que há demanda por isso (livros)".
Não foram todos que concordaram com o economista. Marcus Vinicius Barili Alves, gerente da editora Senac de São Paulo, disse que o preço do livro em dólar é competitivo. "Mas o preço do livro deve ser relativo à renda da população e há espaço para produtos de menor valor", argumentou Giannetti da Fonseca.
Editoras que vendem livros de bolso comprovam que há demanda. A L&PM Editores começou a trabalhar com esse tipo de publicação em 1997. Atualmente, o livro de bolso representa 85% da sua receita. E a expansão prevista para este ano, segundo o diretor Paulo de Almeida Lima, é de 30%.
Só neste ano, a L&PM publicou 150 títulos novos, com uma tiragem de 4 mil a 5 mil cópias e com preço médio de R$ 12. A idéia, disse Lima, é atrair o consumidor pelo preço. "Estamos em supermercados, bancas de jornal e lojas de conveniência. Queremos que o livro fique perto do leitor."
E a L&PM não está mais sozinha. Há um ano e quatro meses, a Companhia das Letras decidiu investir nesse segmento também. Até agora, foram publicados, no formato de bolso, 32 títulos - de um catálogo de 1,5 mil obras. "Publicamos autores de primeira linha e que tiveram êxito comercial (no formato tradicional)", disse Marcelo Levy, diretor comercial. "Queremos alcançar aquele consumidor que teve o projeto de leitura abortado devido ao preço do produto."
Giannetti da Fonseca expôs, também, um outro lado, animador. A universalização do ensino fundamental - hoje cerca de 97% das crianças brasileiras estão na escola - projeta um futuro com mais leitores. "Mesmo que, por enquanto, a qualidade do ensino seja questionável." Apontou outro movimento: o crescimento das igrejas evangélicas, que reforçam o hábito da leitura em seus fiéis.