Título: Analistas não esperam reversão de crescimento
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 10/12/2004, Brasil, p. A5
O resultado da produção industrial de outubro mostra uma desaceleração do ritmo da economia, mas não uma reversão da tendência de crescimento, segundo vários analistas. A queda de 0,4% em relação a setembro, na série livre de influências sazonais, é "uma acomodação num nível elevado", na definição da LCA Consultores, que espera expansão mais contida e irregular nos próximos meses. Para alguns economistas, os números indicam que o ciclo de alta de juros já afeta a atividade. Outros rechaçam essa idéia, pois o Banco Central começou a elevar os juros em setembro e um aperto monetário leva meses para surtir efeito. A economista Mônica Baer, da MB Associados, diz que era esperada uma perda de fôlego da indústria, que cresceu ininterruptamente entre março e agosto. Para ela, depois dessa arrancada, a expectativa é de que haja uma acomodação num patamar elevado, em que a produção tenderia a registrar variação próxima de zero nos próximos meses. Um novo avanço mais significativo poderia ocorrer a partir de março ou abril, mas desde que o BC não promova uma elevação muito forte dos juros, diz. O economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, considera prematuro falar em inversão da trajetória. Segundo Montero, a média móvel trimestral que compara o resultado de agosto a outubro com o de julho a setembro mostrou estabilidade. Por esse critério, a produção de bens duráveis caiu 0,7% e a de bens de capital, 1,7%. Para ele, a queda dos duráveis, que haviam subido muito nos últimos meses, é uma "boa notícia, para aliviar preocupações com o ritmo da demanda". O mesmo não se pode dizer do recuo da produção de bens de capital, afirma Montero, por sugerir -ao lado de indicadores sobre absorção interna de máquinas e equipamentos -que o comportamento dos investimentos em outubro não foi dos mais melhores. "Mas ambos são desdobramentos naturais em relação ao ritmo forte acusado até recentemente e não representam uma reversão de tendência." Para Mônica, o segmento de duráveis perde fôlego não apenas por causa do forte crescimento dos últimos meses, mas também porque a renda demora a avançar. Com isso, a capacidade de endividamento de muitos consumidores se esgota mais rapidamente. Ela lembra que o comportamento da renda também afeta o setor de semi e não duráveis, como alimentos e vestuário. Em relatório, os economistas do Bradesco afirmam que o arrefecimento já reflete o aperto monetário. "Os setores cujas demandas mais rápida e intensamente refletem os movimentos dos juros são os mais afetados. É o caso de material de transporte, material eletrônico e de seus insumos, como borracha e plástico. Não por acaso, os bens duráveis são os que tiveram a queda mais pronunciada." Isso seria "efeito da elevação das curvas futuras de juros ao longo do segundo semestre." O economista Fábio Silveira, da MS Consult, não concorda, afirmando que mudanças nos juros levam alguns meses até produzir impacto sobre a economia. Para ele, houve apenas acomodação. Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o impacto da alta da Selic sobre o desempenho de outubro deve ter sido de fato pequeno. "Mas isso nos leva a uma conclusão do maior significado: os aumentos de juros foram redundantes ou desnecessários, já que a desaceleração já vinha tendo lugar em agosto e setembro."