Título: Quase Primeiro Mundo
Autor: Vieira, Catherine
Fonte: Valor Econômico, 10/07/2006, Eu & Investimentos, p. D1

As gigantes China e Índia não chegam nem perto do Brasil. Pelo menos quando o assunto é o setor de fundos de investimento. Nesse quesito, o país é muito mais evoluído não só entre os chamados BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia), mas entre todos os emergentes. Enquanto no Brasil os fundos representam 38% do PIB, na Índia esse percentual é de 5,11% e na China, de 1,27%. Os outros emergentes que aparecem bem na foto são a Coréia e a África do Sul, mas ainda distantes do Brasil.

Esses dados fazem parte de um dos estudos comparativos mais completos já preparados sobre o assunto e que foi organizado pela Superintendência de Relações com Investidores Institucionais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). São comparados os setores de fundos de 42 países emergentes integrantes da Iosco - instituição internacional que reúne os reguladores de mercado de capitais do mundo todo.

Tanto em volumes absolutos quanto em percentual relativo do PIB, o Brasil se destaca, diz o superintendente Carlos Eduardo Sussekind. A CVM brasileira lidera o grupo de trabalho de fundos na Iosco e conseguiu o feito de coletar informações de mais de 40 países para fazer a pesquisa. "Num trabalho feito anteriormente, só se conseguiu abranger 14 países, agora pudemos ter um panorama maior", conta Sussekind.

Pelo tamanho do setor, que chega inclusive a superar o de vários países desenvolvidos, o Brasil acaba participando na Iosco dos dois grupos ligados a fundos, o que engloba os países desenvolvidos e o que congrega os emergentes. O trabalho da CVM, que foi apresentado à Iosco no mês passado e será publicado pela instituição, estudou dados enviados pelos países entre 1999 e 2003. Em termos de patrimônio líquido, nenhum dos países supera o Brasil, que possuía quase US$ 200 bilhões em fundos em 2003. Hoje, esse valor cresceu e já supera R$ 800 bilhões - mais de US$ 350 bilhões. Como percentual relativo do PIB, apenas a Bulgária e as Ilhas Maurício têm índice maior.

Segundo Sussekind, os 42 países analisados foram divididos em três grupos. O primeiro é composto pelos que contam com o setor de fundos mais desenvolvidos, no qual estão incluídos Brasil, Taiwan, Coréia, Malásia e Israel, entre outros. No grupo intermediário estão países como a Índia, Hungria, República Tcheca e Polônia. Já a China, Venezuela, Colômbia, Eslovênia e outros estão no grupo dos que estão ainda em crescimento inicial. Há casos também de países que não enviaram informações, caso da Argentina.

Apesar de a relação do setor de fundos com o PIB ainda ser pequena, a Índia vem demonstrando crescimento forte e, no período pesquisado, expandiu em 124% o patrimônio das aplicações. Em capitalização de mercado (que representa o valor de mercado das companhias abertas listadas), o Brasil já não ocupa a mesma dianteira. A China lidera e a Índia aparece em quarto, enquanto o Brasil é o sexto.

O vice-presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid), Marcelo Giufrida, diz que há vários fatores que podem explicar o desenvolvimento do setor no país. "Houve uma conscientização muito rápida por aqui sobre a necessidade de aproximar o nosso mercado das regras e padrões internacionais, com isso questões como a do Chinese Wall e controle de riscos se desenvolveram muito rápido no país", diz o executivo, acrescentando que houve um esforço do setor e da CVM nesse sentido.

Na visão de Guifrida, o Brasil também acabou sendo hábil para incluir no setor alguns produtos que em muitos países funcionam como instrumentos à parte. "Os fundos de capital protegido são um exemplo e os 'hedge funds' também acabaram ficando mais como uma estrutura offshore em outros locais enquanto no Brasil criou-se um segmento muito forte de fundos multimercados", diz Giufrida, que também é vice-presidente executivo da área de gestão do BNP Paribas.

Na visão dele, o retorno dos fundos foi outro fator fundamental para o alto desenvolvimento. "Apesar de alguns problemas isolados que ocorreram em algumas carteiras, na média, as performances são muito consistentes ao longo do tempo e, apesar da questão fiscal ter sido um atrativo no início, os fundos acabaram se consolidando como a principal opção dos investidores", diz.

"Hoje a aplicação mais difundida é o fundo de investimento e não mais a caderneta de poupança", avalia Sussekind. Para ele, nos últimos anos, houve uma tendência nos sistemas financeiros no mundo a um deslocamento de riscos do emissor do próprio banco para terceiros, o que acaba favorecendo instrumentos como os fundos. "É uma espécie de desintermediação, que favorece os instrumentos que funcionam como um elo entre o investidor e a empresa ou o emissor que possui a necessidade de captar recursos", diz.

Para o advogado Rafael Maradei, do escritório Barbosa Müssnich e Aragão, a questão regulatória realmente foi crucial para o crescimento do setor no Brasil. "Há fatores conjunturais, mas a forma de atuação da CVM, que costuma se comunicar sempre com os agentes do mercado, e à auto-regulação foram importantes para criar regras adequadas", diz ele.

O superintendente da Anbid, Luiz Kaufman, diz que o grau de sofisticação do mercado brasileiro é um fator importante para atrair investidores e ficará mais evidente quando o país alcançar o "investment grade" (nota de baixo risco, que permite que fundos de pensão americanos invistam no país). "O esforço que a CVM vem fazendo para conseguir expandir a nossa atuação na Iosco e para mostrar mais o mercado brasileiro contribui para que estrangeiros conheçam o país."