Título: Trajetória fiscal não aponta crise, avalia Kawall
Autor: Vieira, Catherine e Grabois, Ana Paula
Fonte: Valor Econômico, 29/08/2006, Brasil, p. A5
Ricardo Benichio/Valor Luiz Carlos Mendonça de Barros: os empresários começam a ter mais confiança de que a ausência de volatilidade do câmbio de fato veio para ficar Enquanto os economistas continuam, em uníssono, colocando as preocupações com o controle de gastos e as questões fiscais no centro do debate, o secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall, diz que a discussão é "bem-vinda". Ele sustenta, contudo, que não há nada que possa sinalizar uma crise fiscal em 2007, embora as despesas públicas tenham subido nos últimos meses em um percentual superior ao do aumento das receitas.
"Isso (o debate sobre gasto público) é absolutamente bem-vindo do ponto de vista da política fiscal. O que não é razoável é dizer que emerge da trajetória de receitas e despesas do governo uma crise fiscal para 2007 " , disse Kawall. "Nem os mercados financeiros estão precificando isso, nem é razoável extrapolar tendências do curto prazo para o médio e longo prazos, como se nenhuma ação pudesse ser feita e projetasse a crise" , completou ele, que participou ontem do seminário "Grau de Investimento, o desafio do próximo presidente", promovido pela Associação dos Bancos do Estado do Rio de Janeiro (Aberj).
No início dos debates, Carlos Langoni, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), classificou a política fiscal do governo como um fator limitante à saúde econômica do país, criticando os gastos com pensões, com pessoal e com programas sociais. Também foi enfático na sua crítica contra o aumento do salário mínimo neste ano e o impacto dessa medida na estrutura de gastos da Previdência Social.
Para Ilan Goldfajn, economista da Casa das Garças e da PUC-Rio, os efeitos colaterais desse crescimento dos gastos serão sentidos quando a economia mundial começar a desacelerar, sendo que esse processo já começa a ficar visível no horizonte. Segundo os cálculos de Goldfajn, se os gastos continuarem crescendo 10% ao ano, para assegurar o mesmo patamar de superávit primário, a carga tributária que hoje beira 38% do PIB poderia ser projetada para 73% em 2020.
Todos os economistas presentes, à exceção dos membros do governo, ressaltaram o descontrole de gastos como um problema grave, mas mantiveram o tom ameno da crítica e reconheceram o bom trabalho feito no plano externo, com a redução da dívida e a recomposição de reservas, o que reduz a vulnerabilidade do país.
Já o consultor Luis Paulo Rosenberg, habitualmente mais ácido, elevou o tom e disparou contra o governo. Segundo ele, os economistas já falaram muito sobre o que se precisa fazer para cortar gastos, mas essa é uma decisão política. "Aí vai depender do engajamento de Severinos e Valdemar, essa laia que vai voltar, nós vamos precisar deles. Esse é o grande drama do gasto público, tem um efeito cremalheira. Um gaiato querendo se reeleger aumenta o salário mínimo e muda o patamar da despesa corrente, agora para trazer isso para baixo vai precisar eventualmente de uma emenda constitucional com quatro votações no Congresso", disse Rosenberg.
Ele afirmou que acha necessário "m pouco de dramaticidade nesse tópico". Sem isso, disse, "ficamos todos aqui nos congratulando". Ele reconheceu que o avanço nas contas externas "foi fantástico", mas defendeu que o país deve aproveitar e tratar seriamente dessa questão e não ficar discutindo se o superávit primário vai ser de 4,2% ou 4,3% do PIB. No meio da apresentação de Rosenberg, Kawall - que havia pedido para antecipar sua palestra - se retirou da mesa de debates e foi embora do seminário. (* do Valor on line)