Título: Sem causa ainda definida, desabamento de prédios deixa ao menos 4 mortos
Autor: Santos,Chico
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2012, Brasil, p. A2
O desabamento, ainda sem causas definidas, de três edifícios na avenida 13 de Maio, centro do Rio de Janeiro, deixando, segundo números atualizados às 20 horas de ontem, quatro mortos, seis feridos e 22 desaparecidos, chama a atenção para a relativa decadência daquela que já foi uma das ruas mais nobres do centro da capital fluminense. Ali, em 1838, foi instalado o Arquivo Público do Império (hoje Arquivo Nacional). Abrigou também a Imprensa Nacional, o Teatro Lírico e o Liceu de Artes e Ofício. Até 1994 era a sede da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e até o começo desta década abrigou, no número 13, o mundialmente famoso bloco carnavalesco Cordão do Bola Preta.
Atualmente a 13 de Maio, uma rua de pedestres desde a conclusão das obras do metrô no fim da década de 1970, caracteriza-se por abrigar prédios de escritórios ou de empresas de pequeno porte, sendo seu espaço público pouco atraente e disputado por camelôs. A presença mais notável é a da parede lateral, guarnecida por grades, do imponente e restaurado recentemente Teatro Municipal, de frente para a praça Floriano, a popular Cinelândia.
Os três edifícios que desabaram ficavam imediatamente atrás do Municipal, separados por uma ruazinha estreita onde ficava a bilheteria do teatro, danificada pelo acidente. Já se sabe que o maior dos três edifícios, o Liberdade, de 20 andares, caiu primeiro e arrastou na queda outros dois, de dez e de quatro andares.
O engenheiro Manoel Lapa, vice-presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e especialista em infra-estruturas, disse que acidentes como o ocorrido na quarta-feira decorrem, em cerca de 90% dos casos, de falhas estruturais de obras que, inadvertidamente, atingem a estrutura da construção. Mas ele não quis arriscar uma razão para a causa dos desabamentos e disse que o clube criou uma comissão para analisar as possíveis causas da ocorrência.
Luiz Antônio Cosenza, presidente da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), disse que obras que estavam sendo executadas no 3º e no 9º andares do edifício Liberdade não estavam registradas na instituição, como deveriam, mas não afirmou também que as obras tenham causado o acidente.
Segundo a prefeitura do Rio, obras internas nos pavimentos dos prédios não precisam ser registradas na Secretaria de Urbanismo do município. Só teriam essa obrigação construções novas ou reformas com acréscimos à construção.
A hoje decadente rua onde estavam os três edifícios que desabaram, passou a chamar 13 de Maio logo após a abolição da escravatura, em 1888. Antes, era chamada de rua Bobadela, homenagem a Antônio Gomes Freire de Andrade, o Conde de Bobadela. Mas até as primeiras décadas do século passado o logradouro era mais conhecido como rua da Guarda Velha, nascida de um caminho que ligava o largo da Ajuda (Cinelândia) ao chafariz da Carioca, primeiro da cidade, no antigo largo de Santo Antônio (hoje largo da Carioca).
Contam os historiadores que, na tentativa de conter a algazarra e até as brigas violentas que ocorriam na fila, geralmente de escravos, para apanhar água no chafariz, Gomes Freire, último governador da Capitania do Rio de Janeiro, instituiu uma guarda para tomar conta do ponto de abastecimento para onde convergiam as águas do rio Carioca. Com a criação de novas guardas em outros locais, aquela que era a primeira passou a ser a guarda velha. Na época (século XVIII), a lagoa de Santo Antônio dominava a região.
Segundo o historiador Francisco Ferreira da Rosa, foi na rua da Guarda Velha que o industrial Bartolomeu Corrêa da Silva abriu aquela que teria sido a primeira fábrica de cervejas do Brasil. O arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, um dos maiores estudiosos do espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro, não atesta e nem contesta essa história, mas diz que a atual 13 de Março tornou-se um espaço nobre por abrigar instituições como a Teatro Lírico, a Imprensa Nacional e o Liceu de Artes e Ofícios.
Os grandes edifícios chegaram ao centro do Rio em 1926 com o edifício A Noite (25 andares), na atual praça Mauá, 21 anos após a inauguração da então bela avenida Central, hoje Rio Branco.