Título: Três semanas de destruição, pânico e mortes no Líbano
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 01/08/2006, Opinião, p. A9
Há três semanas Israel espalha pânico, destruição e mortes no Líbano e não há sinais de que um cessar fogo esteja próximo. Após as novas atrocidades cometidas pelos bombardeios em Qana, dez anos depois de a aviação israelense ter matado mais de cem civis no vilarejo, o governo israelense a contragosto cedeu às exigências dos países desenvolvidos de interromper os ataques aéreos por 48 horas. A ofensiva terrestre, porém, continua. "Se ela terminar hoje, será vitória do Hezbollah", disse o ministro da Justiça, Haim Ramon. "Logo, essa guerra não está para acabar, nem hoje nem amanhã".
Israel dá as cartas nas tentativas de negociações de paz, nas quais os EUA se alinharam incondicionalmente ao lado do premiê Ehud Olmert. Os termos de um cessar-fogo apresentado pelos governos americano e inglês, com apoio de Israel, não estabelecem a necessidade imediata de um fim da violência de ambos os lados, e colocam como pré-condição o desarmamento do Hezbollah, em cumprimento de resolução da ONU, e a criação de uma zona tampão no sul do Líbano a ser vigiada por uma força militar multinacional. Para que um acordo "sustentável" de paz seja selado, a secretária de Estado Condoleezza Rice persegue por meios pacíficos o que Israel busca por meios militares. As chances de ambas as iniciativas darem certo são ínfimas, para não dizer nulas.
Os EUA sequer estabeleceram canais de consulta com os governos da Síria e Irã, que detém influência relevante sobre o Hezbollah, abandonando uma forma de pressão para os quais poderiam concorrer seus aliados na região, como Jordânia e Arábia Saudita. A imagem no mundo árabe de que Israel obteve o sinal verde para atacar o Líbano dos EUA se consolidou e, com isso, as ações do grupo terrorista xiita ganharam um apoio político e popular que no início estavam longe de obter. A destruição do Líbano, após uma sofrida reconstrução física e uma delicada composição política, prossegue sem obstáculos.
O Hezbollah continua bombardeando o norte de Israel e tem seus próprios termos para um armistício. Ele deveria ser imediato, com troca de prisioneiros de ambos os lados e uma força internacional poderia se estabelecer no sul do Líbano, mas sob controle do governo libanês, do qual participa. É um recuo relativo, mas que pode ser visto como ínfimo, se o objetivo for, como parece ser no caso dos EUA e Israel, de desarmar o grupo radical. A tragédia de Qana, com a morte de mais de 50 civis, entre eles 37 crianças, minou consideravelmente as chances de novas negociações.
Não há qualquer chance para a paz sem um cessar fogo imediato. Após três semanas de bombardeios de Israel no Líbano, há um saldo de 700 mortos, na maioria civis, sem que o objetivo de destruir a capacidade de ação do Hezbollah tenha sido atingido. Os ataques do Hezbollah tiraram a vida de mais de 50 israelenses, mas entre as vítimas os civis não são maioria, aponta o jornal britânico "Financial Times". Se os EUA continuarem apoiando os ataques de Israel como caminho para o "novo Oriente Médio", a paz que reinará será a dos cemitérios. Torna-se óbvio que as metas de Bush de tirar manu militari o Hamas e o Hezbollah do mapa político e militar da região e, ainda por cima, ignorando ou hostilizando as potências que os apóiam, como Síria e Irã, configuram um sangrento beco sem saída, no qual estão encurralados civis libaneses indefesos.
O governo Bush escolheu o caminho unilateral da confrontação, sem válvulas de escape necessárias da consulta prévia e das negociações abertas ou de bastidores. A cada passo dessa política, abre-se uma caixa de Pandora. A fria e calculada destruição do Líbano retira forças da "revolução do Cedro", saudada por Washington, e pode recolocar a Síria no centro da política libanesa. Os ataques israelenses em Gaza contra o Hamas fortalecem a miríade de grupos radicais em detrimento da semi-existente Autoridade Palestina e torna a reaproximação dos moderados com Israel impossível no curto prazo. Ataques aos xiitas do Hezbollah e sunitas do Hamas terão alguma influência nas ações do governo de coalizão iraquiano, comandado por xiitas, que tenta estabilizar o país e cessar a guerra entre muçulmanos. Será difícil que os EUA mudem sua estratégia agora, mas um cessar fogo imediato é plausível e tornou-se urgente por razões humanitárias. É preciso estancar o atroz derramamento de sangue nos dois lados da fronteira.