Título: Mercado secundário ainda um é problema para os títulos
Autor: Pavini, Angelo e Fariello, Danilo
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2006, Eu & Investimentos, p. D1
No auge da turbulência dos mercados em maio, durante a semana do dia 22, a forte alta dos juros das NTN-Bs foi agravada por um fator no mínimo inusitado: a ausência dos fundos de pensão que, com bilhões em caixa, poderiam comprar os títulos públicos vendidos em desespero pelos estrangeiros por preços para lá de vantajosos, ganhando com isso muito dinheiro.
Desde que uma série de denúncias em Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) levantou suspeitas sobre operações de compra de papéis por esses fundos no mercado secundário, eles simplesmente só compram direto do Tesouro, explica Alfredo Moraes, presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado (Andima). Com isso, o mercado secundário de papéis federais longos, que começava a dar seus primeiros passos, voltou praticamente à estaca zero. "Os gestores desses fundos temem ser responsabilizados se comprarem um papel no mercado secundário por um preço que pode ser contestado depois", diz Moraes.
Trata-se de um círculo vicioso pois, sem um mercado secundário líquido e transparente, não há como se criar um referencial de taxas que permitiria conferir se o gestor fez um bom negócio para o fundo ou não. E isso afeta também os papéis privados pois, sem uma referência nos títulos públicos, fica mais difícil formar um mercado para os papéis de empresas, como as debêntures.
A paúra dos gestores de fundos de pensão transformou o Tesouro no único "dealer" (intermediário) do mercado, diz Reinaldo Le Grazie, da Nitor Investimentos. Por isso, ele teve de fazer os leilões de compra e venda, adquirindo os papéis dos estrangeiros e repassando-os para interessados locais. "Mas foi uma ótima atuação pois evitou a criação de uma bolha no mercado de juros que poderia contaminar a economia", diz.
Os fundos de pensão estão muito conservadores, mais por questões políticas do que econômicas, diz João César Tourinho, da Black River Asset Management. Ele lembra que esses gestores ficaram em uma situação mais delicada pelas contestações das CPIs. Por isso, não estão tão agressivos para aproveitar as oportunidades criadas pela turbulência nos mercados.
Mas Tourinho acredita que um grande estímulo para a aplicação em renda fixa vai depender de o cenário externo ficar mais claro. Os sinais nos EUA são de inflação acima do desejado pelo Fed, o que deve manter ações de restrição monetária. Isso leva à redução de valor dos ativos globais, diz ele. "Enquanto essa visão predominar, os mercados não devem ter uma vigorosa recuperação." (A.P.)