Título: Juro campeão
Autor: Pavini, Angelo e Fariello, Danilo
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2006, Eu & Investimentos, p. D1

O período de forte turbulência do mercado, iniciado em meados de maio, levou as taxas de títulos prefixados e indexados à inflação a apresentarem fortes oscilações. Por conta dessa volatilidade elevada, muitos investidores venderam a qualquer preço seus papéis e o resultado é que hoje os juros estão muito mais interessantes aos investidores do Tesouro Direto e de fundos de inflação ou de renda fixa prefixados. As incertezas que rondam os mercados interno e externo levaram os papéis mais longos a voltarem a oferecer retorno maior do que os títulos com vencimentos mais próximos. Essa inversão revela um temor do mercado quanto ao futuro da taxa básica de juros, que está em queda há nove meses.

Apesar de as taxas indicarem incerteza do mercado quanto ao rumo dos juros básicos da economia, uma análise macroeconômica ainda indica que a Selic continuará em trajetória de queda, mesmo que em ritmo mais lento, diz Alexandre Vitorino, gerente da Votorantim Asset Management (VAM). A fuga de investidores estrangeiros em busca dos papéis do Tesouro americano levou a uma forte alta nos juros das NTN-Bs, papéis atrelados ao IPCA, que não é condizente com a trajetória de queda das taxas reais, diz João César Tourinho, diretor da Black River Asset Management. "É uma oportunidade sensacional para os aplicadores comprarem papéis via Tesouro Direto, por exemplo", afirma.

Tourinho dá o exemplo das NTN-Bs com vencimento em 2015, que pagam 10,15% ao ano além da inflação. No vencimento, daqui a dez anos, o investidor receberá o valor que aplicou corrigido mais 160% de juros. "Isso equivale a aplicar R$ 100 e sacar R$ 260 mais a inflação, não tem melhor prêmio para quem quer fazer um pecúlio de longo prazo, muito melhor que fundos DI ou poupança" diz. A estratégia é indicada para quem está guardando dinheiro para a aposentadoria, afirma Tourinho.

Mesmo papéis mais longos são interessantes diante dessas taxas, diz Tourinho, dando o exemplo da NTN-B com vencimento em 2045 e que está com juros de 9% ao ano. "Esse é outro nível de retorno desproporcional", afirma ele, que recomenda esse prazo apenas para quem está absolutamente seguro que não vai precisar do dinheiro tão cedo.

Alessandro Cruzolini, gerente de Renda Fixa da Caixa Econômica Federal alerta que esses títulos de renda fixa são longos e, por conseqüência, têm maior oscilação que os papéis com vencimento mais curto. "Mas são bons investimentos para proteção do patrimônio no longo prazo, período em que o impacto das oscilações é menor."

Já as Letras do Tesouro Nacional (LTNs), papéis prefixados, com vencimento mais longo apresentam remuneração mais alta do que a Selic atual, de 15,25% ao ano. Portanto, também há um bom espaço para se ganhar mais com esses títulos do que com os pós-fixados, avalia Vitorino. Se a taxa de juros continuar a cair, a vantagem do prefixado será tanto maior quanto mais cortes a Selic sofrer.

Tourinho, da Black River, lembra que esta é a primeira vez desde 2003 em que a curva de juros das LTNs está invertida, ou seja, os papéis longos, de dois anos, pagam juros maiores, de 16,20% ao ano, do que o overnight Selic, de 15,25%. "É o primeiro sinal de prêmio para quem alongar prazos em prefixados", diz. Ele considera o risco do papel pré atrativo se for levado em conta o controle da inflação conseguido pelo Banco Central nos últimos 12 meses. "Isso mostra que uma trajetória de inflação em torno de 4,5% nos próximos dois anos é possível", afirma. As taxas prefixadas ainda oferecem ganho real bastante atrativo, diz Cruzolini, da Caixa. Mas os juros ainda estão bastante inferiores ao que se pagava no fim de 2005 e começo deste ano.

Tourinho diz que o prêmio da LTN de dois anos só será interessante se o investidor confiar na manutenção da inflação e da política monetária. Diante das alternativas, porém, ele prefere as NTN-Bs de dez anos, mais líquidas, "por causa do juro gigantesco em um prazo tão longo", diz. Os papéis pré poderiam ser uma alternativa de diversificação de parte da carteira.

O aumento das taxas de juros negociadas nos papéis prefixados desde o último mês acabou trazendo perdas aos fundos com esses títulos. Isso acontece porque, à medida que a taxa sobe, o preço do papel cai. Em maio, por exemplo, enquanto o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) avançou 1,28%, os fundos de renda fixa lucraram, em média, 1,07%, segundo o site Fortuna.

Os especialistas ainda não têm uma opinião fechada sobre quando o retorno maior desses títulos prefixados cairá novamente. Certo, por ora, é que esse mercado passou por um momento de relativa calma e previsibilidade na queda das taxas, para um período de oscilações mais fortes, avalia Vitorino. "Apesar de a inflação interna estar controlada, surgem dúvidas quanto ao rumo dos preços e dos juros nos EUA, o que torna menos previsível o destino dos juros aqui."