Título: Ex-dirigente da Funcef vai para o BNDES
Autor: Durão,Vera
Fonte: Valor Econômico, 08/02/2012, Política, p. A4
A indicação de Guilherme Lacerda para uma diretoria do BNDES veio direto do Palácio do Planalto. Lacerda esteve oito anos à frente do terceiro maior fundo de pensão do país, a Funcef, dos trabalhadores da Caixa, cujo patrimônio quadruplicou durante sua gestão, saltando de R$ 10 bilhões para R$ 43 bilhões.
O fato, aliado à perda da eleição para deputado federal pelo PT do Espírito Santo, em 2010, é visto por fontes próximas do economista como um gesto do governo de "acomodação" de um "quadro" partidário que, além de gozar do apoio da ampla maioria da ala majoritária do partido, a Construindo Novo Brasil (CNB), tem méritos próprios.
A trajetória de Lacerda não difere muito da de outros sindicalistas que ascenderam à nova classe de poderosos dirigentes de fundos de pensão, surgida após a ascensão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, em 2002, como escreveu o sociólogo Francisco Oliveira em seu livro "O Ornitorrinco", sobre o governo do sindicalista petista.
Mineiro, 57 anos, natural de Manhuaçú, na Zona da Mata, Lacerda tem origem na classe média baixa - pai caixeiro viajante e depois dono de botequim, no qual começou a trabalhar aos doze anos. Teve carteira de trabalho assinada como auxiliar de escritório aos 14 anos. Estudou a vida toda em escola pública. Fez economia na Universidade Federal do Espírito Santo, mestrado na USP e doutorado na Unicamp.
Antes de ir para a Funcef, onde se projetou para o mundo empresarial e financeiro como um dirigente respeitado e entendido em grandes negócios, principalmente em infraestrutura (participou ativamente da reestruturação do setor ferroviário), Lacerda foi professor universitário, sindicalista dos professores universitários, fundador da CUT e funcionário do Banco do Brasil.
Na política, assessorou Victor Buaiz, governador petista eleito no Espírito Santo em 1994 como diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo. Em 2010, incentivado por petistas como o presidente do PT, José Eduardo Dutra, resolveu aceitar o desafio de se candidatar a deputado federal pelo Espírito Santo numa coligação PT, PMDB e PSB. Perdeu a eleição e ainda foi acusado de fazer campanha milionária, o que sempre rechaça. A despesa de campanha, como declarou, foi de R$ 1,7 milhão, abaixo dos R$ 1,9 milhão de sua concorrente partidária, a ex-ministra Iriny Lopes, que era da Articulação de Esquerda, tendência petista opositora à CNB, de Lacerda.
Lacerda não esconde de ninguém seus vínculos com figuras emblemáticas do PT como Luiz Gushiken, que foi ministro de Lula no primeiro mandato. Também se relaciona com José Dirceu desde 1995, quando este era presidente do PT e estreitou mais os laços com o ex-ministro a partir da campanha presidencial de 2002.
Sua entrada no fechado mundo dos fundos de pensão ocorreu em 2003 e é atribuida por ele ao amigo Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal no primeiro mandato de Lula. A relação com Mattoso vem desde a campanha presidencial de Lula em 1989, quando atuaram juntos na elaboração do programa economico petista, ao lado de Aloízio Mercadante, hoje ministro da Educação.
Lacerda também é ligado a Ricardo Berzoini, como Sergio Rosa, ex-presidente da Previ e Wagner Pinheiro, ex-presidente da Petros. Os três eram dirigentes das três maiores fundações fechadas e eram ligados a Gushiken. "Foram os três (Rosa, Pinheiro e Lacerda) que conseguiram derrotar o Opportunity na guerra de Dantas contra os fundos no episódio da Brasil Telecom", destacou um ex-dirigente de fundo de pensão que admira Lacerda.
A indicação de Lacerda para o BNDES pelo Planalto não surpreende, pois ele tem uma relação bem próxima com a presidente, fortalecida após a queda de Dirceu e posterior ascensão de Dilma à Casa Civil.
Durante a reestruturação da Brasil Ferrovias, empresa em que era presidente do Conselho de Administração por conta da Funcef, uma de suas acionistas, posteriormente comprada pela América Latina Logística (ALL), Dilma lhe cobrou mais agilidade das obras, ao que Lacerda respondeu: "Ministra, eu levo o cavalo até a poça d"água. Depois para beber, é com ele". "Então você dá um canudinho para ele tomar a água", respondeu Dilma.
Bem sucedido na Funcef, ele fez seu sucessor o também petista Carlos Caser. E depois de deixar a fundação, em maio passado, já esperava ser indicado para um cargo importante no governo federal.
No BNDES, o ex-presidente da Funcef vai enfrentar mais um desafio de cuidar da infraestrutura social e do meio ambiente num dos maiores bancos de fomento do mundo. É a primeira troca de diretor desde que Luciano Coutinho assumiu a presidência do BNDES em (Colaborou Caio Junqueira, de Brasília)