Título: PT monta aliança com Jader no Pará
Autor: Santos, Chico
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2006, Política, p. A4
Uma até recentemente improvável aliança com o PT pode dar ao PMDB paraense, comandado pelo deputado federal Jader Barbalho, a chance de desempatar a seu favor a disputa com o PSDB pelo governo do segundo maior Estado brasileiro (1.253.164,5 km²) e maior província mineral do país, dividida em 12 anos de mandato para cada partido nos últimos 24 anos. Por enquanto, o PSDB, vencedor nas três últimas eleições, é o favorito com o nome de Almir Gabriel, governador de 1995 a 2002.
Mas o outro lado ainda não definiu seu candidato. Barbalho, que renunciou ao mandato de senador e à Presidência do Senado em 2001 para evitar o risco de ser cassado por quebra de decoro parlamentar, em meio a um vendaval de acusações de corrupção, ainda não disse se vai tentar seu terceiro mandato como governador (elegeu-se em 1982 e 1990), se tenta voltar ao Senado ou se vai apenas buscar a renovação do mandato de deputado.
O PT decidiu formalmente buscar uma aliança com o PMDB de Barbalho no mesmo encontro estadual que escolheu o nome do deputado estadual Mário Cardoso para duelar com o tucano Gabriel. Uma escolha a contragosto da cúpula petista. O partido, na verdade, tinha como certa a candidatura do ex-deputado federal Paulo Rocha, colhido no olho do ciclone do escândalo do mensalão. Rocha, como Barbalho, renunciou para não correr o risco da cassação, mas seu nome ficou inviabilizado para a disputa ao Palácio dos Despachos (sede do governo estadual) deste ano.
O segundo nome preferido, o da senadora Ana Júlia Carepa, não pode ser proposto no encontro por desinteresse da parlamentar, cuja imagem estaria sendo desgastada por uma incômoda fama de não concluir mandatos (disputou todas as eleições de 1992 a 2002, apesar de ter sido derrotada apenas em 1998, para o Senado). Mas o deputado federal Zé Geraldo, presidente estadual do PT, disse tentará até o dia 30, data da convenção regional do partido, convencer a senadora a voltar atrás e Mário Cardoso a abrir mão do seu direito à candidatura.
O discurso oficial do PT paraense é de que deseja a aliança com Barbalho, mas não aceita que o pemedebista lidere a chapa majoritária no primeiro turno. O deputado Zé Geraldo disse que o ideal seria ter o ex-senador como candidato ao Senado, ajudando a puxar votos para a chapa, desde que o PT tivesse um nome de maior expressão para tentar interromper o tucanato de 12 anos.
Zé Geraldo afirmou também que "não existe" a possibilidade de o PT participar de uma chapa encabeçada por Barbalho no primeiro turno. Mas o secretário de comunicação do PT paraense, Bira Rodrigues, também membro do diretório regional do partido, enfatizou que a prioridade absoluta dos petistas no Pará é contribuir para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rodrigues também disse que seria praticamente impossível unir o PT paraense em torno de uma chapa liderada por Barbalho, mas o sociólogo e analista político Manoel Alves, pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) não descarta a coalizão.
Para Alves, os discursos estão sendo cuidadosamente montados para ocultar a realidade, embora ele considere muito remota a hipótese de Barbalho sair candidato a governador. Autor de estudo sobre o surgimento de novas lideranças políticas no sudeste do Estado, graças à fragmentação administrativa, Alves acha que o fenômeno enfraqueceu as oligarquias que apoiavam Barbalho e arrisca cogitar uma inédita vitória do PSDB no primeiro turno.
Embora ainda seja uma força política poderosa no Estado, o pemedebista estaria avaliando cuidadosamente o risco de, no caso de derrota, ficar sem mandato e exposto a se defender nos inúmeros processos a que responde sem o guarda-chuva da imunidade parlamentar.
Esse risco estaria presente mesmo na tentativa de retorno ao Senado e por isso, o analista avalia que a opção de Barbalho pode ser mesmo ficar na Câmara. Dessa forma, ele teria reeleição assegurada, seria um poderoso "puxador" de legenda para formar uma bancada pemedebista forte e ganharia poder de barganha na disputa por cargos federais na região Norte. Para Alves, Barbalho só aceitaria uma revanche agora com o Gabriel (perdeu em 1998) se tivesse a promessa de Lula de ganhar um ministério em caso de derrota. Barbalho, por enquanto, segue em silêncio e não respondeu ao pedido de entrevista feito pelo Valor.
Do lado tucano, o governador Simão Jatene, um ex-membro da equipe de Almir Gabriel que se elegeu como continuador do seu projeto em 2002 e que decidiu agora abster-se de tentar a reeleição em favor do líder, afirma que não há um projeto alternativo ao do PSDB. Jatene disse que é contra a reeleição e criticou o que chamou de "lamentável hábito de traição no jogo político" no seu Estado na disputa por liderança, justificando a devolução do poder a seu antecessor e padrinho político.
Jatene disse que Gabriel será novamente candidato porque "é o que tem maiores chances de vitória". Gabriel não nega que queira voltar ao Palácio dos Despachos, mas disse que só assumiu a candidatura porque Jatene lhe disse que estava fora.
O Pará, com 6,97 milhões de habitantes (2005, última estimativa oficial do IBGE), ainda tem sua economia baseada no extrativismo mineral e vegetal, além da pecuária bovina. De 1997 a 2003, o PIB do Estado tem crescido acima da média nacional, mas isso não impediu que a taxa de analfabetismo na população com 5 ou mais anos de idade tenha aumentado de 15,11% para 15,31% de 2001 a 2004, enquanto a média nacional caiu de 14,58% para 13,6%. Apesar do crescimento, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de 2003 (último disponível) ainda era menor do que a média da região Norte (R$ 4.367 contra R$ 5.512).
Para Alves, pesquisador da UFPA, não há como negar que o projeto e o modelo de gestão dos tucanos representaram um avanço sobre o período liderado pelo PMDB. Para ele, ainda que os fatos estejam aquém do discurso, os governos de Gabriel e Jatene buscaram a organização das contas públicas e enxugaram a máquina administrativa. Os gastos com pessoal caíram de 82% da receita em 1994 para cerca de 50% no ano passado, segundo dados do Estado. Para Alves, a gestão pemedebista era mais voltada para interesses puramente eleitorais e até pessoais.