Título: Moedas dos emergentes perdem força
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2006, Finanças, p. C12
Na semana passada, o México assustou os mercados de câmbio internacionais com a desvalorização de 2,4% no peso, a maior desde junho de 2003. O país da América Latina veio se juntar à Nova Zelândia, com perdas de 1,23% no dólar neozelandês somente na semana passada. E também à Islândia, Hungria, Turquia, que vêm registrando desvalorizações em suas moedas. Ontem, em relatório, a Merrill Lynch alerta: o movimento de enfraquecimento das moedas dos países emergentes apenas começou.
O argumento dos analistas Tulio Vera e Daniel Tenengauzer é que o aperto monetário combinado no Japão, Europa e Estados Unidos vai reduzir a procura pelas moedas dos emergentes e reduzir o crescimento econômico mundial no segundo semestre, com impacto maior no quatro trimestre. "Para o resto do ano, nós esperamos um enfraquecimento das moedas resultante da deterioração nas balanças comerciais, incertezas políticas e erros de condução da política monetária" nos países emergentes, dizem eles.
Os ganhos com carregamento ("carry trade") - estratégia na qual o investidor toma dinheiro a juros baixos nos países ricos e investe nos juros internos dos países emergentes, valorizando as moedas desses países - vão perder importância, à medida que os juros nos países ricos forem subindo e dos emergentes, caindo, argumentam os analistas. Isso já acontece em alguns casos, sendo o México e a Nova Zelândia dois exemplos. O movimento de queda nos juros promovido pelos banco centrais desses dois países parece ter chegado ao fim, segundo os dirigentes desses mesmos bancos centrais. O BC mexicano baixou os juros básicos no país para 7,25% ao ano, seu menor nível em 18 meses, e pretende parar por aí.
Para os analistas da Merrill Lynch, no entanto, os bancos centrais dos emergentes parecem hoje mais preocupados com a valorização de suas moedas do que com a inflação, que está controlada. "O aperto monetário nos países ricos pode pôr pressão em algumas curvas de juros de países emergentes", dizem. Se os BCs desses países não seguirem as expectativas, as moedas poderão ser afetadas, avaliam eles.
Esse "dilema" na política monetária vai acontecer justamente em um ano eleitoral para o México, Brasil e Hungria, entre outros. Na Tailândia, Coréia, Filipinas e Polônia as incertezas políticas também são grandes, dizem os mesmos analistas.
É verdade que no Brasil os juros básicos de 16,5% ao ano ainda possibilitam que a estratégia de "carry trade" continue a ser bastante rentável. Além disso, o país, diferentemente dos emergentes com moedas já em processo de desvalorização, tem superávit em conta corrente. Mas, segundo alerta o relatório da Merrill Lynch, uma situação externa mais confortável de um país não é "um seguro" contra enfraquecimento das moedas.
O banco lembra que, de um déficit de US$ 50 milhões em conta corrente em 96, os países emergentes têm hoje um superávit de US$ 156 bilhões. "Em sistemas de câmbio flutuante, um declínio de fluxos pode disparar o gatilho de um enfraquecimento da moeda independentemente da posição da conta corrente (superávit ou déficit)", argumentam. Segundo eles, se o déficit na conta de capitais desses países crescer, os países emergentes com superávit de conta corrente podem ter enfraquecimento de moedas se o BC não vender dólar.