Título: Brasil ainda convive com doenças "antigas"
Autor: Leo, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2006, Brasil, p. A6
A expansão da fronteira agrícola com o sucesso do agronegócio e o crescimento dos cinturões de pobreza em torno das cidades se somaram às deficiências do sistema de saúde pública para tornar mais difícil o combate às doenças transmissíveis no Brasil. Enquanto a aids é alvo de uma elogiada campanha no país, moléstias típicas do subdesenvolvimento resistem aos esforços e metas do governo. Doenças que se julgava controladas ameaçam até as capitais mais ricas, como a dengue no Rio de Janeiro. No ano passado, o Brasil registrou 591 mil casos de malária, doença extremamente concentrada na Amazônia.
É irregular o quadro apresentado pelo Brasil em relação às chamadas doenças "negligenciadas", de pouco interesse para os laboratórios internacionais por afetarem principalmente os mais pobres. O país conseguiu reduzir o número de casos de algumas doenças, como difteria, que contaminava milhares de pessoas na década de 80 e hoje não chega a duas dezenas de casos por ano; ou o cólera, responsável por muitas epidemias - a de 1993 matou 670 pessoas. Desde 2001 não há mortes por cólera no país, e, nos últimos dois anos episódios isolados foram logo controlados, embora a presença do vibrião do cólera tenha sido constatada em fontes de água, o que preocupa os responsáveis pela vigilância.
As campanhas contra doenças para as quais existem vacinas são elogiadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas mudanças no ecossistema, provocadas pela expansão da agricultura, ameaçam de retorno doenças já controladas. O caso mais exótico é o da raiva humana. Em regiões de pecuária, a retirada dos animais para abate leva os morcegos a atacar a população, que antes considerava esse bicho inofensivo ao homem. Em 2005, houve apenas um caso de raiva humana no país, mas os relatos de ataques de morcegos deixaram a vigilância sanitária em alerta.
Especialistas temem que mudanças nas formas de transmissão de doenças como essa, somadas ao despreparo e falta de estrutura dos responsáveis pelo atendimento básico, provoquem casos não detectados pelo sistema de saúde, o que poderia levar a surtos no futuro. Um motivo sério de preocupação é a doença de Chagas: mal o Brasil pôde comemorar a extinção do principal vetor da doença, o barbeiro que infestava casas na zona rural, o sistema de saúde começou a receber pacientes contaminados por um parente do inseto, que vive em plantas como a palmeira do açaí na Amazônia.
Durante a fabricação do suco de açaí, ou do caldo de cana, o bicho pode ser triturado, espalhando o protozoário causador da doença. Foi esse o processo que levou a um surto em Santa Catarina, por causa da preparação de caldo de cana em condições de higiene pouco recomendáveis. Neste mês, o Brasil conseguiu certificar o último município como livre do barbeiro, algo que a Argentina não conseguiu até hoje. Especialistas independentes, como Christina Zackiewickz, da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras, temem, porém, que os novos vetores driblem o sistema de vigilância e espalhem a doença.
Mais séria é a ameaça da malária, doença que já deu ao Brasil, nos anos 40, o recorde de casos - quase 6 milhões ao ano- e que no ano passado gerou um número de doentes semelhante ao do auge do expansionismo das estradas e garimpos na Amazônia dos anos 70. Em 1999, devido à excessiva centralização e à ineficiência dos métodos de prevenção - muito concentrados na dedetização de focos de mosquitos - o país chegou a ter mais de 635 mil casos. Isso exigiu um programa dirigido do governo, que reduziu o número a 348 mil em 2002. Desde então, a doença - concentrada na Amazônia - voltou a se alastrar. Em 2005, 591 mil casos foram identificados
Nesses caso, além de condições de clima que facilitaram a proliferação dos mosquitos, três fatores principais podem ser identificados: o crescimento desordenado de cidades como Manaus, o fracasso de assentamentos rurais criados sem assistência (nem atendimento médico) às margens de florestas, e o fiasco do projeto de pequenos empreendimentos de pesca em criatórios, responsáveis por milhares de tanques próximos a cidades na região amazônica, hoje locais de proliferação do mosquito transmissor da doença.
"O problema da malária não está no sistema de saúde, mas em questões econômicas", comenta o secretário de Vigilância de Saúde, Jarbas Barbosa. Manaus, lembra ele, cresceu a um ritmo quase cinco vezes superior à taxa média no Brasil. Barbosa espera ver, em 2006, uma queda nos casos da doença, hoje monitorada em quase 2 mil pontos de controle no país. Os dados do início do ano mostram redução dos registros da doença em todos os Estados da Amazônia, à exceção do Acre.
Para o especialista Pedro Luiz Tauil, do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília, a malária é um exemplo de uma dificuldade recorrente no Brasil: o sucesso no combate a alguma doença costuma fazer com que se relaxe a prevenção (já constrangida habitualmente pelas restrições orçamentárias) e abre caminho para novo surto.
Após 1999, quando o Brasil chegou a abrigar metade dos casos de malária nas Américas, o governo fez seguidas reuniões com governadores e prefeitos, para estimular campanhas contra a doença. "Com os planos intensos em 2001 e 2002 a incidência caiu pela metade, mas então o mal saiu da agenda política e o número de casos voltou a subir", diagnostica Tauil, que há 35 anos lida com doenças tropicais.
Em 2002, com a mudança do governo, interrompeu-se o Programa de Intensificação das Ações de Controle da Malária, que articulava o governo e os responsáveis pelas ações, os Estados e municípios. O efeito foi imediato. Em 2004, os casos já subiram para cerca de 411 mil, com 90 mortes, bem mais do que as 77 de 2002.
A malária e outras doenças transmissíveis nunca serão erradicadas do país, por se disseminarem entre animais dos reservatórios naturais da fauna nacional. Isso obriga o governo a campanhas freqüentes de prevenção e localização dos casos, para evitar a propagação da doença por pessoas infectadas. Melhor sucesso se conseguiu com a febre amarela silvestre, graças a uma campanha sistemática de vacinação que, após um surto em Minas Gerais, com assustadores 64 casos em 2003, levou o país a registrar somente cinco casos em 2004 e três em 2005. O ecoturismo ameaça trazer a doença de volta às cidades, o que exigiu das autoridades sanitárias campanhas de vacinação dirigidas aos visitantes da Amazônia e regiões de cerrado, como as chapadas do Centro-Oeste.