Título: Prodi anuncia vitória na Itália, mas Berlusconi pede recontagem
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Fonte: Valor Econômico, 12/04/2006, Internacional, p. A15
O premiê Silvio Berlusconi contestou a vitória anunciada pela oposição nas eleições gerais na Itália. Ele pediu uma recontagem de votos e a apuração de supostas irregularidades na votação de italianos no exterior, que acabou dando a vitória à oposição. O impasse institucional pode durar semanas.
Na apuração da votação na Itália, a coalizão de oposição ficou com maioria na Câmara, e a coalizão de governo com maioria no Senado. Mas, com o voto de italianos no exterior (inclusive no Brasil), apurado na madrugada de ontem, a oposição virou o resultado no Senado e conseguiu uma maioria de um voto (veja quadro ao lado).
A Itália adota o sistema de governo parlamentarista. A coalizão que obtém maioria nas duas casas do Parlamento forma o governo.
Com isso, Prodi (de centro-esquerda) se declarou vencedor e chegou a ser cumprimentado por chefes de governo de outros países. "Vencemos por um fio. Agora temos de começar a governar."
Mas Berlusconi (de centro-direita) se recusou a reconhecer a derrota e deixou claro que, para ele, ainda não há um vencedor. "Não hesitaremos em reconhecer a vitória do adversário, mas só quanto terminarem os procedimentos legais de verificação. Por enquanto, ninguém pode dizer que venceu."
A coalizão governista contesta dois pontos da eleição. Em primeiro lugar, diz que a pequena diferença na votação para a Câmara, cerca de 25 mil votos (num universo de 40 milhões), ainda não é definitiva. Lembra que, nas eleições anteriores, em 2001, houve uma diferença de 36 mil votos em relação aos resultados divulgados na apuração e o resultado final sancionado pela Justiça. Isso dá margem para uma reviravolta.
Como houve 1.102.188 votos nulos e 611.158 votos invalidados, Berlusconi quer ainda uma verificação e recontagem desses votos, o que pode levar semanas.
Além disso, em pronunciamento ontem à tarde o premiê pediu investigação dos votos no exterior, sem justificar por quê. "Houve muitíssimas irregularidades. Não se pode excluir que esse voto possa ser considerado não válido", afirmou. Caso isso venha a ocorrer, sua coalizão recuperaria a maioria no Senado, o que bloquearia a formação de um novo governo por Prodi.
Curiosamente, foi o governo Berlusconi que aprovou a polêmica lei que concede o direito de voto a italianos no exterior, o que inclui muita gente que tem a cidadania italiana, mas não tem nenhum contato com o país. Na votação na América do Sul, foram eleitos dois senadores, um que apóia Prodi e um independente.
Berlusconi acenou com a possibilidade de uma grande coalizão, como a que governa a Alemanha atualmente, que reuniria os maiores partidos do governo e da oposição, como forma de não "excluir do jogo democrático do país metade dos cidadãos." Mas Prodi rejeitou a proposta, dizendo que sua coalizão tem apoio suficiente para governar sozinha por cinco anos.
O impasse eleitoral tem duas explicações. Por um lado, a Itália se mostrou dividida: a eleição foi a mais apertada do pós-guerra. Mas boa parte da culpa cabe a Berlusconi, que alterou o sistema eleitoral no final do ano passado, passando-o de distrital misto (que favorece os grandes partidos e a formação de governos mais estáveis) para proporcional puro (no qual cada partido recebe representação de acordo com sua votação, o que fragmenta o quadro político e dificulta a formação de um governo estável). Segundo analistas, a mudança da lei foi casuística