Título: Interpretando o atual momento da indústria
Autor: Almeida, Júlio Gomes de
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2006, Opinião, p. A16

Algumas questões ganharam destaque com a recente divulgação da pesquisa industrial referente a fevereiro: 1) a indústria brasileira superou o período de dificuldades vivido em parte do ano passado e já cresce aceleradamente? 2) O que vem determinando a acentuada irregularidade do setor? 3) Sua evolução tem sido homogênea ou decorre de trajetórias setoriais particulares? 4) Quais são as perspectivas para o resto do ano? É importante responder essas indagações porque os resultados da produção da indústria vêm sendo interpretados ou com pessimismo exagerado ou, como agora, com um otimismo maior do que os dados autorizam.

Se de um lado, de fato o momento atual é de recuperação e o horizonte que se delineia é de um crescimento maior do que a modesta taxa do ano passado (3,1%), por outro, a irregularidade e alta concentração setorial têm sido as marcas registradas do setor nos últimos meses, de forma que um desempenho mais "exuberante", embora seja plenamente possível, ainda está por ser construído. Vejamos cada um desses pontos.

Há sinais claros de que foi superada a retração que se abateu sobre a indústria no terceiro trimestre de 2005 e que a fase atual é de reativação. Em primeiro lugar, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a produção vem evoluindo a taxas crescentes desde novembro do ano passado: 0,9% nesse mês, 2,7% em dezembro de 2005, 3,1% no mês seguinte e 5,4% em fevereiro último. Em segundo lugar, a média móvel trimestral de produção com ajuste sazonal vem apresentando comportamento ascendente há três meses consecutivos: de um índice de 111 em novembro de 2005, passa para 112,5 em dezembro e daí para 113,2 em janeiro e 114,1 em fevereiro.

No entanto, na margem, o reerguimento industrial não tem sido uniforme. Relativamente ao mês anterior, em fevereiro a produção ajustada sazonalmente cresceu 1,2%, recuperando-se do recuo de 1,3% registrado em janeiro. Em dezembro, a taxa foi de +2,4%. São, portanto, oscilações fortes, que parecem indicar que se efetivamente foi superado o pior da retração de 2005, a expansão que teve lugar ainda não ganhou consistência. O percurso tem sido irregular e, em média, o progresso da produção até agora foi modesto.

-------------------------------------------------------------------------------- A retomada industrial ainda está muito restrita aos poucos produtos que em 2005 já desfrutavam de melhores condições --------------------------------------------------------------------------------

A insegurança das antecipações de consumidores e empresários após a desaceleração econômica em 2005 é um dos destacados fatores que vem ditando o ritmo irregular da indústria. Não é por acaso que foram os fabricantes de bens de consumo duráveis e de bens de capital os mais afetados pelas incertezas nas avaliações. No primeiro caso, refletindo as decisões familiares quanto ao consumo diferenciado, a produção na série com ajustamento sazonal alternou elevação pronunciada em fevereiro relativamente a janeiro (+6%) e declínio expressivo em janeiro (-4,2%), após registrar um recorde de crescimento em dezembro de 2005 (+17,8%). No segundo, respondendo às decisões de investir dos empresários, a produção também vem oscilando acentuadamente, no caso, desde outubro de 2005: queda de 5,2% nesse mês, grande impulso nos dois meses seguintes (+4,6% e +6,4%), novo revés em janeiro de 2006 (-4,5%) e acréscimo de 1,5% em fevereiro.

Uma outra característica nesse início de ano é que o dinamismo industrial tem sido muito restrito, pois quase metade do avanço da produção de 4,2% no primeiro bimestre com relação aos dois primeiros meses do ano passado deveu-se à evolução de apenas três setores de atividade: indústria extrativa, máquinas para escritório e equipamentos de informática e material eletrônico e equipamentos de comunicações. Nesses setores, quatro produtos despontaram: ferro e petróleo, no caso do primeiro desses setores, e computadores e aparelhos celulares, respectivamente, nos dois últimos.

Esses são produtos que desde o ano passado vêm conseguindo contornar os efeitos das políticas macroeconômicas restritivas. A maior produção de ferro responde à demanda e aos preços crescentes do produto no cenário mundial; altos preços internacionais e uma estratégia de investimentos estatais visando a auto-suficiência foram determinantes para o dinamismo na área de petróleo; a produção de computadores vem contando com o estímulo de redução de preços de componentes, menores impostos e crédito com prazos e taxas de juros favoráveis; finalmente, as inovações de produto e de comercialização vêm tornando o aparelho celular um bem de uso muito difundido no país.

Ou seja, por enquanto a retomada industrial está ainda muito restrita aos mesmos poucos segmentos/produtos que já vinham desde o ano passado desfrutando de melhores condições de mercado. Por outro lado, diversos segmentos com peso expressivo na produção e no emprego industrial ainda não mostram sinais de melhoria. Nos casos de alimentos, têxtil, vestuário, calçados, madeira e mobiliário, a contribuição de cada um deles para a elevação da produção industrial no primeiro bimestre foi zero.

O cenário para o corrente ano é que a indústria vá ganhando uma maior regularidade e generalização em sua trajetória, fechando o ano com uma expansão média maior do que no ano passado. O principal fator que sustentará esses processos é a redução que vem ocorrendo nas taxas de juros, cujos efeitos deverão se fazer sentir a partir já do presente trimestre. Outros fatores são: a maior massa de rendimentos da população e o reforço de poder de compra proporcionado pelo aumento real do salário mínimo. Dadas essas tendências, a produção da indústria poderá evoluir 4,5%, o que é compatível com uma variação do PIB de 3,5% ou até 4%. Para além disso, será necessário que as mencionadas atividades industriais que ainda não reagiram venham a crescer mais rapidamente. Como em todas elas é significativa a influência do câmbio, eis aí uma via - a desvalorização da sobrevalorizada moeda nacional - para que a indústria e a economia brasileira como um todo venham a crescer ainda mais em 2006.

Julio Gomes de Almeida é diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).