Título: Governos frágeis são mau agouro
Autor: Wolf, Martin
Fonte: Valor Econômico, 12/04/2006, Opinião, p. A17

A agitação política européia infelizmente deslocou a minha prometida coluna sobre a desigualdade nos EUA. Mas a capitulação talvez previsível do presidente Jacques Chirac aos manifestantes, os resultados da eleição italiana e a eleição de 2005 na Alemanha agora se combinam para suscitar uma pergunta forçosa: quais as perspectivas da Europa num momento em que os três gigantes continentais estão tão fracos politicamente? A resposta simples é: "terríveis".

A Europa é muito mais do que três países. Mas a Alemanha, a França e a Itália contribuem com pouco mais de dois terços do PIB da zona do euro e com pouco menos de metade do PIB da União Européia de 25 membros. Eles foram os três membros dominantes da UE original de seis países e seus mais influentes promotores ao longo do meio século subseqüente.

Os três enfrentam atualmente a perspectiva de terem governos fracos: a França tem um presidente desacreditado que só é coerente em seu oportunismo e na sua incapacidade de discernimento; a Itália poderá ter uma nova coalizão governante fraca, cujos membros jamais demonstraram capacidade para reconhecer, quanto mais resolver, as suas dificuldades; e, embora a Alemanha tenha em Ângela Merkel uma nova chanceler relativamente eficaz, ela preside uma ampla coalizão dividida internamente.

Um governo inativo não precisa ser uma maldição. Contanto que o setor privado seja saudável e o ambiente político confira apoio, ele pode até ser uma benção. Isso, lamentavelmente, não é o caso dos três enfermos continentais da Europa. O setor privado alemão é o mais robusto dentre eles e o da Itália, o mais fraco. Mas as três economias precisam de governos reformadores ativos. A recuperação cíclica atualmente em curso também oferece a oportunidade perfeita para reformas. É quase certo que ela, infelizmente, será descartada, com graves conseqüências para o futuro de longo prazo não só destes países, mas da própria zona do euro.

Que esses três compartilham deficiências significativas é evidente. De acordo com um excelente relatório recente do Grupo de Assessoria Econômica Européia na CESifo (Report on the European Economy 2006, March 2006, www.cesifo-group.de), em Munique, o fator total de crescimento da produtividade - o crescimento da produção que não pode ser explicado pelo crescimento dos insumos do trabalho e do capital - caiu para níveis muito baixos em todos os três. Igualmente impressionantes são os fracos mercados de trabalho: em dezembro do ano passado, a taxa de desemprego era de 9,5% na Alemanha, 9,2% na França e 7,7% na Itália, contra 4,9% no Reino Unido e nos EUA.

Tão importantes, no entanto, são as diferenças entre eles: a Itália sofreu uma enorme perda de competitividade dentro da zona do euro, enquanto a Alemanha e, em menor escala, a França, a melhoraram; a Alemanha teve um excelente desempenho em exportações, ao passo que a França (apesar da melhora na competitividade) e a Itália demonstraram desempenho relativamente fraco; a vantagem comparativa da Alemanha complementa a da China, enquanto o desempenho da Itália concorre com ela; a Alemanha tem taxas de desemprego relativamente baixas para os menores de 25 anos, enquanto a França e a Itália registram taxas bem superiores a um quinto dos que procuram emprego; a dívida pública bruta da Itália em relação ao PIB, em 107% em 2004, de acordo com a Eurostat, está muito acima daquela da França, com 65%, ou da Alemanha, com 66%; e, por fim, a demanda interna francesa tem estado aquecida, enquanto as da Itália e da Alemanha têm permanecido fracas.

-------------------------------------------------------------------------------- Perspectivas da Europa são terríveis, no momento em que estão fracos os três gigantes, detentores de pouco menos da metade do PIB da UE --------------------------------------------------------------------------------

As debilidades que esses países compartilham e as divergências que têm entre si realçam três pontos: primeiro, todos eles precisaram se submeter a reformas substanciais; segundo, enquanto parte das reformas essenciais (de regulação de mercado de produtos, por exemplo) são similares, outras são específicas para cada um; e, por fim, sem reformas, a zona do euro como um todo deverá funcionar insatisfatoriamente, com graves conseqüências políticas e econômicas. A reforma pode ser uma responsabilidade nacional, mas é também uma obrigação para com os demais membros do clube da moeda.

Talvez o fracasso mais deprimente da liderança política ao longo da década passada tenha sido a recusa de levar as implicações do ingresso na zona do euro a sério. Para uma área de moeda, qualquer necessidade de ajustar unidades de custo de mão-de-obra em relação às das demais áreas geralmente deveria ocorrer por meio de mudanças no valor externo da moeda. Para países dentro de uma área de moeda, porém, as mudanças em competitividade exigem ajuste em unidades nominais relativas de custo de mão-de-obra. Portanto, a competitividade perdida da Itália só poderá ser reconquistada através de um "prolongado período de crescimento abaixo da média da zona do euro em unidades de custos de mão-de-obra", para citar um artigo recente de Alan Ahearne e Jean Pisani-Ferry para a Bruegel, um novo instituto de pesquisas europeu ("The Euro: Only for the Agile", February 2006, www.bruegel.org). Isso vai doer. Realmente, devemos duvidar se isso será politicamente viável em um país condicionado a encarar a associação à zona do euro como um benefício gratuito em vez de um amargo remédio.

Não que as reformas tenham estado ausentes; é mais o caso de elas terem sido grosseiramente inadequadas. Também não é que as elites legisladoras estejam inconscientes sobre os desafios; é mais o caso delas não estarem dispostas a se expor. Na França, extraordinariamente, a população parece crer que todos podem, e devem, ser tratados simplesmente como funcionários públicos. Eles almejam uma combinação milagrosa de segurança quase absoluta no trabalho com prosperidade crescente. Num mundo em acelerada mudança, esta é uma forma de desordem cognitiva coletiva.

Centralismo administrativo temperado por sublevação popular tem sido a característica histórica da França. Localismo e clientelismo têm similarmente caracterizado a política da Itália. Na Alemanha, a unificação também tornou o país menos governável; sem ela, uma ampla coalizão provavelmente teria sido desnecessária. Nenhum destes países conseguiu mudar a direção facilmente sem distúrbios. A França até conseguiu ter distúrbios sem nenhuma mudança na direção.

O mundo agora precisa contemplar um futuro em que os países mais importantes do continente têm governos frágeis que governam populações descontentes. Considerando-se o seu peso, esses países podem impossibilitar o funcionamento da UE, minando a eficácia da Comissão Européia, investindo contra o mercado único, resistindo à expansão e opondo-se às concessões necessárias para completar as negociações multilaterais de comércio no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Esses governos são mau agouro, portanto, não só para a reforma interna, mas para o destino da zona do euro, da União Européia e para o papel da UE no mundo. Fracassos de políticas internas e de educação pública nessa magnitude causam mais do que algumas poucas dificuldades locais. Elas têm conseqüências malignas para o mundo mais amplo.