Título: Supostos desvios não prejudicam ações
Autor: Mandl, Carolina e Moreira, Talita
Fonte: Valor Econômico, 13/04/2006, Empresas, p. B2

A preocupação manifestada por analistas e investidores sobre a relação entre as empresas e a política não tem se refletido no comportamento das ações em bolsa.

Os papéis de todas as companhias que tiveram seus nomes de alguma forma envolvidos no suposto esquema de favorecimento de políticos valorizaram-se desde junho, quando a crise foi detonada pelas declarações do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre a existência do mensalão.

As ações preferenciais classe A da Usiminas subiram 91,89% desde então, superando o desempenho do Ibovespa. A siderúrgica foi citada no relatório final da CPI dos Correios como uma das financiadoras do valerioduto, pelo qual o publicitário Marcos Valério captava recursos por meio de suas agências de publicidade para transferi-los a políticos.

Outra suposta abastecedora do esquema, a Brasil Telecom, teve alta de 5,37% nas ações preferenciais. A Telemar obteve valorização de 5,57%. A operadora foi mencionada no relatório da CPI não por fazer parte do valerioduto, mas por ter investido na Gamecorp, empresa que tem entre seus sócios um filho do presidente Lula.

Procuradas, Usiminas e Telemar não comentaram o assunto. A BrT também preferiu não se manifestar.

Por que o desempenho das ações parece ignorar a crise? "Imagino que exista por parte dos investidores preocupação com a conduta das empresas, mas as ações refletem mais questões de ordem financeira", afirma Luciana Leocádio, analista de telecomunicações da BES Securities.

Três analistas consultados pelo Valor e que não quiseram ser identificados dizem que as quantias envolvidas nos supostos desvios são pequenas se comparadas à receita das empresas e por isso não representam um grande problema.

"Não importa o tamanho de um desvio de conduta. Roubo é roubo", contrapõe Renato Janine, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, especialista em ética.

Para o fundo de investimentos Ethical, do ABN Amro, que tem em carteira ações da Usiminas, a crise acendeu o sinal amarelo. Socialmente responsável, o Ethical não contém restrições a empresas que fazem doações a candidatos políticos, já que isso é um ato legal.

"Mas a questão da Usiminas está sendo avaliada e, se for considerada quebra de conduta ética ou prática injustificável de governança corporativa, as ações serão excluídas", diz Pedro Villani, gestor do Ethical.

Responsável, entre outras coisas, pela proteção dos investidores contra atos ilegais de administradores e controladores de companhias de capital aberto, a Comissão de Valores Mobiliários instaurou um inquérito para apurar o que aconteceu na Brasil Telecom e na Usiminas. Até o julgamento, detalhes da investigação não são fornecidos.

No dia-a-dia das empresas pouca coisa parece ter mudado. A exceção ficou por conta da Brasil Telecom, que alterou a forma de relacionamento com as agências de publicidade. Segundo uma fonte do setor, a contratação delas passou a ser feita pela área de marketing e não mais pela presidência. Além disso, as decisões agora são distribuídas entre vários funcionários. Marketing passou a ser considerada uma área de risco porque envolve cifras subjetivas e a melhor forma de mitigá-lo seria evitar concentração de poder.

Porém, as mudanças na operadora não são conseqüência da apenas crise política, mas decorrem principalmente da troca de gestores. Os fundos de pensão e o Citigroup assumiram o comando da BrT em 2005 com um discurso moralizador, numa estratégia que serve de munição na disputa com o Opportunity.

"No fim das contas, é com isso que os investidores estão mais preocupados: como vai acabar a briga. Não que os desvios sejam relevados, mas eles estão mais preocupados em saber qual a perspectiva de rentabilidade futura da BrT", diz o analista Roger Oey, do Banif.