Título: Mercado espera alta de preço e vai buscar alternativas
Autor: Goes, Francisco e Goméz, Natália
Fonte: Valor Econômico, 03/05/2006, Especial, p. A10

O mercado de gás natural prevê uma explosão dos preços do insumo como consequência maior da atual crise diplomática junto à Bolívia. Hoje o gás boliviano importado custa aproximadamente US$ 5,20 por milhão de BTU. Mas, entre 2003 e 2005, o preço do insumo ficou congelado em US$ 3,30 por milhão de BTU, justamente para incentivar a expansão do consumo.

Mas, desde agosto do ano passado os preços da commodity importada do país vizinho já subiram 45%, segundo o secretário de Energia e Recursos Hídricos de São Paulo, Mauro Arce.

"A consequência maior dessa medida do governo boliviano certamente será um aumento ainda maior nos preços. Se tivéssemos uma dependência pequena dessas importações, seria mais fácil. Mas infelizmente as importações respondem por 50% da nossa demanda", disse Arce. Um novo reajuste é esperado para 1º de julho, já que desde setembro passado a Petrobras vem adotando uma política de aumentos trimestrais do gás natural para as distribuidoras.

O diretor de assuntos institucionais e regulatórios da Comgás, Carlos Eduardo Brescia, diz que não vê possibilidade de desabastecimento, mas inevitavelmente haverá um aumento do custo da importação do gás boliviano. "A questão central dessa discussão nos próximos dias com certeza será em relação ao preço do gás".

O gás boliviano responde por 70% das vendas da Comgás.

Mesmo não trabalhando com a hipótese de desabastecimento, a Comgás se preparou para dar prioridade a clientes de tal modo que a migração do gás para outra fonte, como o óleo combustível, fosse feita com o menor impacto possível em caso de necessidade.

Ronaldo Kollman, diretor da Gas Brasiliano, que importa da Bolívia 100% do gás que distribui, também vê aumentos de custos de importação: "O preço deverá subir muito não só pela crise e o aumento dos impostos da Bolívia, mas por causa do preço do petróleo, que serve como balizador do da commodity, está batendo recordes e chegando a US$ 74 o barril".

A Tendências Consultoria ontem soltou um relatório já estipulando um aumento de US$ 450 milhões nos custos da Petrobras com a importação da bolívia neste ano. Nos últimos dois anos, os gastos com compras externas de gás natural vinham se expandindo a uma taxa media de 38% ao ano e totalizaram US$ 809,6 milhões em 2005.

Sem a elevação dos impostos e se o valor gasto com as importações do insumo boliviano durante este primeiro trimestre se repetisse ao longo de 2006, esse crescimento provavelmente manteria a trajetória registrada nos anos anteriores. Mas a nova previsão da Tendências é de que o valor das importações do produto cresça 56% neste ano em relação a 2005, atingindo US$ 1,260 bilhão.

Na tentativa de estimular o consumo de gás natural no Estado, a Sulgás, controlada pelo governo do Rio Grande do Sul, vinha adiando os reajustes de preços dos combustíveis. Segundo o presidente da empresa, que tem ainda 49% de participação da Petrobras, Edivilson Brum, 100% do gás natural consumido no Estado provém do país vizinho. Conforme o presidente da companhia, o último aumento, de 5%, aplicado no mês passado pela Petrobras, não foi repassado pela empresa gaúcha a seus clientes.

De acordo com ele, os clientes da Sulgás não dependem exclusivamente do gás natural e podem substituí-lo por outros combustíveis, embora isto acarrete aumento de custos. "O gás também é menos poluidor", comentou

A alta nos preços do gás deverá provocar um encolhimento do mercado de gás, já que o combustível enfrenta a concorrência do GLP (gás liquefeito de petróleo), óleo combustível, carvão e biomassa. Essas alternativas passarão a ser economicamente mais atrativas.

Wagner Vícter, secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Estado do Rio, disse ter proposto ao diretor da Petrobras, Ildo Sauer, a instalação de uma unidade de gaseificação no Rio. "Conseguiríamos implantar e licenciar a unidade em prazo de 180 dias", disse Victer. Ele disse que a Petrobras teria que praticar preços mais baixos pelo óleo diesel, diesel e GLP vendidos às empresas que tenham de migrar do gás natural para estes combustíveis em caso de interrupção no fornecimento do gás boliviano. Ele reconheceu que a insegurança criada pela nacionalização das reservas de gás na Bolívia desestimula o mercado de gás natural no Brasil, que tem projeções de crescimento entre 5% e 10% ao ano nos próximos anos.

Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), disse que a interrupção no fornecimento de gás da Bolívia não é um cenário provável. "Em tese, se isso ocorresse, teria que se priorizar a demanda e alguns setores teriam que buscar outros combustíveis", disse Tolmasquim.